Reduto de realizadores de cinema de um período significativo do cenário nacional, a Boca do Lixo abrigou o chamado cinema marginal.
    Tratado com menosprezo, a Boca foi fundamental para o fomento da produção nacional de baixo orçamento. Sem as amarras dos grandes estúdios, possibilitou um cinema autoral que driblava a censura da época e competia com as produções americanas.
    Ao rever os filmes da Boca é preciso contextualizar o período em que foram produzidos e se ater ao que estava sendo dito por baixo das alegorias sexuais das pornochanchadas. É importante salientar também, que a Boca do Lixo não se resume as produções de humor sexualizado. Faroestes, terror e dramas faziam parte do catálogo, mas para o grande público tudo foi compactado sob a forma das pornochanchadas.
    José Mojica Marins, o nosso Zé do Caixão, reconhecido mundialmente como um dos grande realizadores do gênero do horror, é mais um nome de destaque da Boca, assim como o famoso autor de novelas, Silvio de Abreu.
    Hoje a Boca do Lixo assume ares de cult, com documentários, filmes e séries sobre sua história.

    Se você se interessou pela Boca do Lixo e quiser conhecer um pouco mais sobre as produções da época eu recomendo além do documentário “Boca do Lixo a Bollywood Brasileira” (Youtube), o documentário “As histórias que o nosso cinema não contava” (Netflix), de Fernanda Paiva, sobre as táticas usadas para a pornochanchada driblar a ditadura e satirizar a política nacional tocando em pontos sociais sensíveis da realidade da época.

    Falando especificamente do movimento popularizado como “Pornochanchada” é necessário desmistificar a narrativa que aquelas produções se resumiam a sexo, linguagem vulgar e baixo nível. Talvez a fase final daquele ciclo, quando o sexo explícito foi inserido nos filmes e os principais autores se retiraram da linha de frente, tenha contribuído para essa visão limitada, mas antes de seguir por esse caminho melancólico o cinema nacional trouxe críticas, inconformismos, denúncias, levou adaptações de autores como Nelson Rodrigues para as telas, e levou o brasileiro a prestigiar o cinema feito em casa.

    A nudez e o humor eram utilizados muito mais como iscas para fisgar inicialmente o espectador do que para aliená-lo. Entre corpos despidos e boas risadas, mensagens eram transmitidas e o filme dessa forma cumpria sua função social. Machismo, corrupção política, pobreza, desigualdades, depressão, racismo e outras tantas questões permearam as obras da pornochanchada. É só buscar por filmes como “A Dama da Lotação”, “A Super Fêmea”, “As Aventuras Amorosas de Um Padeiro”, “As Histórias Que As Nossas Babás Não Contavam”. O catálogo é vasto, e a diversão é garantida. Também é possível encontrar diversos rostos conhecidos das novelas globais e dos programas da emissora.

    Então baixe a guarda do preconceito e aventure-se pelo mundo efervescente da pornochanchada.

    @resenha100nota

    Share.