Estava lendo A Montanha Mágica, de Thomas Mann, quando me deparei com uma das passagens mais enigmáticas e atuais do romance. Escrita às vésperas da Primeira Guerra Mundial e concluída antes da Segunda, a obra acompanha Hans Castorp, um jovem engenheiro que sobe aos Alpes para visitar um primo doente num sanatório e ali permanece por sete anos. É nesse microcosmo de pacientes tuberculosos, médicos filosóficos e discussões sem fim que Mann encena um embate civilizacional entre duas forças ideológicas: a razão iluminista de Settembrini e o misticismo autoritário de Naphta.

    Ambos disputam a alma de Castorp, mas o verdadeiro crescimento do personagem se dá quando ele percebe que nenhum sistema é suficiente para compreender o ser humano em sua complexidade. Eis a passagem central:

    “O ser humano é senhor das oposições, que existem por seu intermédio, e por conseguinte ele é mais nobre que elas. Mais nobre que a morte, demasiado nobre para ela: e isso é a liberdade de sua mente. Mais nobre que a vida, demasiado nobre para ela: e isso é a piedade em seu coração.”

    Castorp compreende que o homem é quem inventa os opostos — vida e morte, razão e fé, liberdade e autoridade. E, por isso, é também aquele que pode transcendê-los. Esse é o ponto em que Mann se separa de seus personagens e se aproxima da verdade — não há salvação na razão pura nem na fé cega. Ambas se tornam cárceres quando erigidas como sistemas absolutos.

    Esse dilema é perturbadoramente atual. Vivemos tempos de polarização política global que reproduzem o mesmo teatro dualista de Settembrini e Naphta. De um lado, um progressismo que pretende reengenheirar a humanidade com base em planilhas e identidades; de outro, um populismo que vende a nostalgia como projeto, camuflando o medo sob a capa da tradição. Ambos reivindicam o monopólio da verdade e pedem lealdade incondicional.

    Porém, como em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, a verdade muitas vezes está fora do discurso. Lá, os porcos prometem aos demais animais que tirarão os homens do poder em nome da igualdade — e de fato o fazem. No entanto apenas para assumir eles próprios o papel dos tiranos. A promessa de proteção era uma mentira funcional: os porcos não libertaram os animais, apenas tomaram o lugar dos opressores anteriores com mais eficiência e menos escrúpulos.

    O risco que corremos é o mesmo: acreditar que sistemas impessoais nos salvarão da condição humana. Quando, na realidade, a tarefa política mais difícil é também a mais simples — reconhecer que o ser humano deve ser sempre fim, nunca meio. E que, para cada solução proposta a um problema social, um novo problema inevitavelmente nasce.

    Mann nos diz, através de Castorp, que a liberdade da mente e a piedade do coração são as únicas forças capazes de manter o homem acima da maquinaria ideológica. E, se isso parece pouco diante das forças organizadas do mundo, é porque esquecemos que todas essas forças foram inventadas por homens. E podem ser reinventadas por eles também.

    Não há redenção nas abstrações. A única escolha digna é estar do lado do homem — mesmo que isso signifique ficar sozinho diante das vozes que gritam em nome do todo.

    Por Thiago Moura de Albuquerque Alves

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