No dia 18 de julho de 2025, o presidente Donald Trump sancionou a GENIUS Act (S.1582/119‑27), a primeira legislação federal dos EUA a regular stablecoins de pagamento, ou seja, criptomoedas lastreadas integralmente em dólares ou ativos líquidos de baixo risco. A nova lei exige auditoria independente, transparência sobre reservas e supervisão federal ou estadual qualificada para qualquer emissor. Mais do que isso: proíbe o Federal Reserve de emitir uma moeda digital para o público.

    O que o público muitas vezes confunde é que stablecoins não são equivalentes ao Bitcoin — e, na verdade, surgiram como sua negação pragmática. Enquanto o Bitcoin rejeita bancos centrais, lastros e qualquer autoridade reguladora, as stablecoins abraçam tudo isso: prometem estabilidade, rastreabilidade e adesão institucional. São, antes de tudo, instrumentos que tentam capturar a eficiência da blockchain sem romper com o dólar. A GENIUS Act, nesse contexto, não autoriza uma rebelião monetária — ela legaliza uma reinvenção.

    A reportagem da The Economist, publicada em 23 de julho, capturou o espírito do momento ao dizer que o que está em jogo é um “big bang” das finanças, com potencial para reconfigurar o sistema monetário global. Pela primeira vez, uma superpotência reconhece que dinheiro digital pode — e deve — ser privado, desde que regulado com firmeza.

    De piada a prioridade

    Wall Street, que até ontem ridicularizava o entusiasmo cripto, agora corre para recuperar o tempo perdido. JPMorgan desenvolveu seu próprio token. BlackRock administra um fundo monetário tokenizado com bilhões sob gestão. E Robinhood lançou mais de 200 tokens que permitem a investidores europeus negociarem ações americanas mesmo fora do horário da bolsa.

    O conceito por trás disso tudo é simples, mas poderoso: tokenizar ativos reais, criando representações digitais de ações, títulos, fundos e commodities — com maior liquidez, menor custo e negociação instantânea. O que antes era exclusivo de grandes investidores, agora começa a se espalhar com fluidez algorítmica.

    A ameaça aos bancos vem por dentro

    Para os bancos, o risco é tão concreto quanto mensurável. Se apenas 10% dos US$ 19 trilhões em depósitos de varejo nos EUA forem deslocados para stablecoins e fundos tokenizados, o custo médio de captação sobe e as margens encolhem. Visa e Mastercard também veem seu modelo de negócios ameaçado, já que moedas digitais corporativas — como uma futura Amazon Coin — poderiam eliminar intermediários e taxas, oferecendo descontos diretos ao consumidor.

    O alerta está dado: a infraestrutura financeira tradicional está sendo desmontada por dentro, com ferramentas legais e tecnológicas, sem necessidade de insurreição. A disrupção é silenciosa, mas profunda.

    Nem todos veem a GENIUS Act como uma alavanca para a modernização financeira. O economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, alertou em artigo no New York Times, publicado um dia antes da aprovação, que a nova lei pode trazer de volta o caos da chamada Free Banking Era — período do século XIX em que bancos emitiam suas próprias moedas, muitas vezes sem lastro confiável, o que levou a pânicos e prejuízos generalizados. Para Eichengreen, permitir que empresas como Amazon ou Walmart lancem stablecoins é reencenar, em blockchain, um erro histórico.

    O futuro já começou

    A GENIUS Act pode ser lembrada como o momento em que os Estados Unidos abraçaram a digitalização do dinheiro — não via Banco Central, mas por meio do mercado, sob vigilância regulatória. A decisão é política, jurídica e estratégica. O modelo adotado não é o chinês, centrado no Estado, nem o libertário, regido apenas por código. É uma terceira via: inovação privada com limites públicos.

    Como conclui a The Economist, quanto mais úteis forem os tokens e stablecoins, mais perigosos eles se tornam para o modelo financeiro atual. Isso não é um paradoxo — é uma reconfiguração. Por outro lado, a nova lei pode ficar conhecida como uma tentativa pouco relevante ou desastrada de imitar a bitcoin. O futuro dirá.

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