This article explores the concepts of crime generator and crime attractor, formulated by professors Paul and Patricia Brantingham as part of the Crime Pattern Theory. It analyzes their origins, applications in urban environments, the positioning of Brazilian and international authors, and successful cases in crime prevention. The conclusion offers a perspective based on the contemporary ideas of a renowned international author, emphasizing the optimistic potential of environmental criminology in creating safer urban spaces.
    Resumo
    Este artigo explora os conceitos de crime generator e crime attractor, formulados pelos professores Paul e Patricia Brantingham como parte da Teoria dos Padrões Criminais (Crime Pattern Theory). Analisa suas origens, aplicações em ambientes urbanos, posicionamento de autores brasileiros e internacionais, além de casos de sucesso na prevenção criminal. A conclusão oferece uma perspectiva otimista com base nas ideias contemporâneas de um renomado autor estrangeiro, enfatizando o potencial da criminologia ambiental na criação de espaços urbanos mais seguros.
    Breves considerações sobre Criminologia Ambiental: as raízes da Prevenção Espacial
    As raízes da criminologia ambiental encontram-se no trabalho pioneiro de criminólogos europeus e britânicos. André-Michel Guerry, advogado e estatístico francês, e Adolphe Quetelet, estatístico belga e um dos fundadores da sociologia moderna, foram precursores ao mapear as estatísticas de criminalidade europeias em altos níveis de agregação (país, província e cidade). Eles descobriram que a criminalidade não era distribuída uniformemente, mas tendia a se concentrar em áreas e horários específicos. Além disso, observaram que os padrões de crimes contra a propriedade e crimes violentos diferiam substancialmente entre si e em diferentes regiões. Pesquisadores britânicos posteriores, como Henry Mayhew, aprofundaram essa análise em níveis mais baixos de agregação, debruçando-se sobre os padrões de criminalidade nas colônias de Londres e identificando a concentração de crimes em áreas específicas, frequentemente localizadas nos limites das cidades.
    A segunda onda de pesquisa que fornece uma base teórica sólida para a criminologia ambiental provém da Ecologia Humana, especificamente do trabalho de Clifford Shaw e Henry McKay e da renomada Escola de Sociologia de Chicago. Shaw e McKay examinaram os padrões de criminalidade em Chicago utilizando a metodologia de Ernest Burgess. Burgess comparou as taxas de criminalidade e delinquência com a forma urbana de uma cidade, levantando a hipótese de que uma cidade se desenvolve para fora de um núcleo comercial central em zonas concêntricas. Ele teorizou que a criminalidade se concentraria no centro da cidade e diminuiria à medida que a distância dessa área aumentasse. Os resultados de Shaw e McKay confirmaram a teoria de Burgess, revelando que a delinquência e outros problemas sociais (pobreza, doenças, rápida mudança populacional) se concentravam no centro da cidade e declinavam radialmente para fora do núcleo, um padrão consistente ao longo do tempo.
    Na década de 1970, o trabalho de dois criminologistas expandiu significativamente a base teórica da criminologia ambiental: C. Ray Jeffrey e Oscar Newman. Jeffrey, em seu livro Crime Prevention Through Environmental Design, e Newman, em seu livro Defensible Space, argumentaram que a adaptação da arquitetura urbana poderia reduzir a criminalidade. Esses dois trabalhos cristalizaram as diferenças entre a criminologia convencional do século XIX e início do século XX e a criminologia ambiental. Primeiramente, a pesquisa convencional via o crime como um problema inerente a disciplinas mais amplas como a sociologia e a psicologia, enquanto a criminologia ambiental considerava o crime o foco central da pesquisa. Em segundo lugar, a criminologia tradicional tendia a se concentrar no infrator e em suas motivações, enquanto a criminologia ambiental se preocupa com eventos criminais discretos e sua geografia/cenário.
    Fundamentação teórica: Crime Generator e Crime Attractor
    Por muitos anos, a criminologia tradicional concentrou-se quase que exclusivamente no infrator, ignorando outros elementos cruciais do crime, como a vítima, a lei e o próprio evento criminal. Na criminologia ambiental, Patricia L. Brantingham e Paul J. Brantingham concentram-se no que classificaram como a quarta dimensão do crime — o cenário do crime. Especificamente, eles estudam onde e quando o crime ocorre, utilizando “a imaginação geográfica em conjunto com a imaginação sociológica para descrever, compreender e controlar eventos criminosos” (Brantingham & Brantingham, 1981, p. 21).
    Os criminólogos Patricia L. Brantingham e Paul J. Brantingham formalizaram os conceitos nos anos 1990 dentro da Crime Pattern Theory, propondo que certos tipos de locais urbanos influenciam a distribuição do crime de forma distinta. Amiúde, a Teoria dos Padrões Criminais (Crime Pattern Theory) é uma abordagem da criminologia ambiental que busca entender como e onde os crimes ocorrem, com base nos padrões de movimentação das pessoas no espaço urbano.
    Ela parte do princípio de que os crimes não acontecem aleatoriamente, mas sim em locais onde:

    • Há oportunidade (alvo acessível)
    • O infrator está familiarizado com o ambiente
    • Existe baixa vigilância ou controle informal
      A teoria considera três elementos principais:
    1. Nós de atividade: locais que as pessoas frequentam regularmente (casa, escola, trabalho)
    2. Rotas de deslocamento: caminhos entre esses nós
    3. Áreas de conscientização: zonas onde o infrator conhece o ambiente e percebe oportunidades
      Assim, os crimes tendem a ocorrer ao longo das rotas diárias dos infratores, especialmente em áreas onde eles se sentem confortáveis e percebem vulnerabilidades.
    • Crime Generator (Gerador de crime): São locais que recebem um grande fluxo de pessoas por atividades legítimas (como estádios, shoppings, estações de transporte público), criando muitas oportunidades criminais mesmo sem intenção prévia de crime por parte dos frequentadores. A alta concentração de potenciais vítimas e alvos facilita a ocorrência de delitos.
    • Crime Attractor (Atrator de crime): São áreas com reputação consolidada por facilitar atividades criminosas específicas, atraindo deliberadamente infratores motivados (por exemplo, bairros de bares com alta incidência de furtos, mercados ilícitos). Nesses locais, a própria natureza do ambiente e a percepção de impunidade servem como um ímã para a criminalidade.
      A hipótese do “funil urbano” (funneling hypothesis) reforça que os fluxos humanos cotidianos concentram pessoas em nodos urbanos onde crimes são mais prováveis, independentemente da motivação inicial dos indivíduos. Isso significa que a simples movimentação de pessoas por determinados pontos da cidade pode, por si só, gerar oportunidades para a ocorrência de crimes.
      Posições de autores e aplicações práticas
      A teoria dos Brantingham tem sido amplamente explorada e aplicada por diversos autores internacionais e brasileiros, demonstrando sua relevância na prevenção criminal.
      2.1 Autores internacionais
    • Kurland, Johnson & Tilley (2014): Em um estudo em torno do Wembley Stadium, em Londres, demonstraram que dias de jogo funcionam como crime generators, com aumento de crimes violentos e furtos. No entanto, apenas alguns tipos de crimes ultrapassam a taxa proporcional, evidenciando que nem sempre esses locais se tornam crime attractors para todos os delitos.
    • McCord, Ratcliffe & Garcia (2007–2019): Utilizando dados na Filadélfia, mostraram que a proximidade com crime generators ou attractors aumenta a percepção de risco e incivilidade pelos residentes urbanos. Isso destaca a importância da percepção ambiental na sensação de segurança das comunidades.
    • Ronald V. Clarke: Um dos principais expoentes da Prevenção Situacional do Crime, Clarke defende que a criminalidade pode ser reduzida através da alteração das oportunidades para o crime, sem necessariamente focar nas motivações do infrator. Seus trabalhos complementam a teoria dos Brantingham ao propor intervenções práticas que tornam o crime mais difícil, mais arriscado ou menos recompensador em locais específicos, transformando crime generators e attractors em ambientes menos propícios à criminalidade.
      2.2 Autores brasileiros
    • Marco de Nadai et al. (2020): Embora não especificamente sobre estádios, esse estudo integra fatores socioeconômicos, mobilidade e caracterização do ambiente urbano para explicar padrões criminais, alinhados à teoria de Brantingham. Essa abordagem multifatorial é crucial para entender a complexidade da criminalidade em grandes centros urbanos brasileiros.
    • Projeto CrimAnalyzer (São Paulo, 2020): Desenvolvido em São Paulo, essa ferramenta de mapeamento identifica hotspots criminais em regiões com base em fluxo, infraestrutura e padrões temporais. O CrimAnalyzer permite aplicar o modelo de crime generators e attractors em contextos urbanos brasileiros, fornecendo dados para a elaboração de estratégias de segurança pública mais eficazes e localizadas.
      Exemplos de aplicação: transformando áreas de risco em espaços seguros
      A aplicação dos conceitos de crime generator e crime attractor tem gerado resultados concretos na prevenção criminal em diversas cidades:
    • Wembley, Londres (2014): O estádio funciona como um crime generator com aumento temporário de crimes em dias de evento, mas não necessariamente como crime attractor para todos os delitos. Isso permite que as autoridades concentrem esforços em tipos específicos de crime durante esses períodos.
    • Charlotte, EUA (2005–2009): O estádio da cidade foi identificado como um generator de criminalidade em um raio de aproximadamente 800 metros, com foco em furtos e violência durante os jogos. Essa análise espacial permitiu intervenções direcionadas.
    • United Center, Chicago: Similarmente, o aumento de crimes em dias de evento demonstra padrões de hotspots e tipos de delitos que variam conforme o uso do espaço, indicando a necessidade de estratégias de policiamento adaptadas.
      No Brasil, a aplicação desses modelos também tem mostrado resultados promissores:
    • Fortaleza, Ceará: A implementação de blitzes espaciais estratégicas, testadas em áreas próximas a eventos com grande fluxo de pessoas, resultou em uma redução significativa de crimes violentos.
    • São Paulo: O uso do CrimAnalyzer como ferramenta de análise situacional permite mapear e atuar preventivamente em áreas de alta incidência criminal próximas a grandes polos de fluxo, otimizando a alocação de recursos policiais.
      Aplicação prática: estratégias para uma prevenção eficaz
      A aplicação prática da criminologia ambiental e dos conceitos de Brantingham & Brantingham envolve uma série de etapas e intervenções:
    1. Diagnóstico espacial: Identificar áreas com alta densidade de atividades (nodes) que funcionam como crime generators ou attractors. Isso requer o mapeamento detalhado dos fluxos de pessoas, da infraestrutura urbana e dos registros de ocorrências criminais.
    2. Intervenções situacionais:
      o CPTED (Crime Prevention Through Environmental Design): Aplicação de princípios de design urbano para reduzir oportunidades de crime, como iluminação adequada, vigilância natural (visibilidade), separação de fluxos (pedestres e veículos) e controle de acesso a determinadas áreas.
      o Policiamento orientado por dados: Uso de hotspots e análises preditivas para alocar recursos policiais de forma personalizada e preventiva, concentrando o patrulhamento em locais e horários de maior risco.
    3. Análise temporal e categórica de crimes: Mensurar se os crimes ocorrem devido ao grande fluxo de pessoas (generator) ou por motivação específica dos infratores (attractor). Essa distinção é crucial para definir respostas adequadas, seja protegendo alvos vulneráveis ou desmotivando ofensores.
      Conclusão: o otimismo da prevenção inteligente
      O professor David Weisburd, renomado especialista em Hot Spots Policing, defende que intervenções pontuais e bem direcionadas são capazes de reduzir a criminalidade de forma eficaz e sustentável, sem deslocamento significativo para outras áreas. A aplicação dos conceitos de crime generator e crime attractor permite que as intervenções situacionais sejam calibradas de maneira precisa — protegendo locais vulneráveis, desestimulando ofensores e, em última instância, aprimorando a segurança urbana de forma inteligente.
      Conclui-se que a combinação da análise ambiental (environmental criminology), do desenho urbano inteligente e do policiamento baseado em evidências oferece um modelo promissor, replicável e escalável para prevenir a violência em estádios e outros grandes agregadores urbanos. Ao invés de uma abordagem reativa, a criminologia ambiental nos convida a um futuro onde a prevenção é proativa, transformando áreas de risco em espaços mais seguros e controlados, onde a ordem e a segurança se tornam pilares do desenvolvimento urbano.
      Referências Bibliográficas
    • Brantingham, P. & Brantingham, P. (1981). Environmental Criminology. Beverly Hills, CA: Sage Publications.
    • Brantingham, P. & Brantingham, P. (1995). Criminality of Place: Crime Generators and Crime Attractors. European Journal on Criminal Policy and Research.
    • Clarke, R. V. (1997). Situational Crime Prevention: Successful Case Studies. Guilderland, NY: Harrow and Heston.
    • De Nadai, M. et al. (2020). Socio-economic, built environment… estudos sobre mobilidade e crime. arXiv.
    • Garcia-Zanabria et al. (2020). CrimAnalyzer: Understanding Crime Patterns in São Paulo City. arXiv.
    • Jeffrey, C. R. (1971). Crime Prevention Through Environmental Design. Beverly Hills, CA: Sage Publications.
    • Kurland, J., Johnson, S. D., & Tilley, N. (2014). Offenses around Stadiums: A Natural Experiment on Crime Attraction and Generation. Journal of Research in Crime and Delinquency.
    • Mayhew, H. (1862). London Labour and the London Poor. London: Griffin, Bohn, and Company.
    • McCord, E. S., Ratcliffe, J. H., Garcia, R. M., & Taylor, R. B. (2007, 2019). Estudos sobre geradores e atratores e percepção de risco urbano. Office of Justice Programs (OJP).
    • Newman, O. (1972). Defensible Space: Crime Prevention Through Urban Design. New York: Macmillan.
    • Quetelet, A. (1842). A Treatise on Man and the Development of His Faculties. Edinburgh: William and Robert Chambers.
    • Shaw, C. R., & McKay, H. D. (1942). Juvenile Delinquency and Urban Areas. Chicago: University of Chicago Press.
    • Weisburd, D. (2015). The Law of Concentration of Crime and Its Implications for Crime Control. Crime and Justice, 44(1), 45-91.
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