Fernando Pessoa perguntou: “Como é por dentro outra pessoa? (…) Nada sabemos da alma senão da nossa.” Lewis Carroll respondeu pela boca de Humpty Dumpty: “Quando eu uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu escolho… A questão é quem é o chefe.”

    Entre a constatação poética e a ironia literária está o diagnóstico do nosso tempo: o solipsismo deixou de ser hipótese filosófica para virar vício cultural. Ele invade a política, que passa a girar em torno de narrativas autorreferentes; a arte, que se fecha em circuitos que só falam a si mesmos; a literatura, que às vezes se torna diário público; e o direito, que corre o risco de virar exercício de “quem é o chefe” sobre o texto constitucional.

    Construímos uma praça pública de monólogos: cada um é seu próprio Humpty Dumpty, dobrando palavras ao gosto do dia e chamando isso de “minha verdade”.

    Lévinas, filósofo francês nascido em uma família judaica na Lituânia, nos lembra que o encontro com outra pessoa não é apenas um diálogo, mas um chamado ético: ao olhar o outro, somos obrigados a reconhecer que ele existe fora de nós e que não pode ser reduzido às nossas ideias ou conveniências.

    Outro filósofo, Gadamer, acrescenta que compreender é fundir horizontes, permitindo que a verdade surja no espaço entre perspectivas. Mas isso exige escuta real, disposição para ser transformado pelo que não cabe no nosso repertório — seja no debate político, na criação artística, na interpretação literária ou na aplicação jurídica.

    O antídoto ao solipsismo não é apenas boa vontade: é método, diálogo e humildade interpretativa. É aceitar que nem a lei, nem a arte, nem a política, tampouco o direito, existem para confirmar nosso reflexo, mas para mediar encontros com o que é irredutivelmente outro.

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