Quando criança, sonhamos seguir as mais diversas carreiras. Médicos, veterinários, bombeiros ou quem sabe astronautas.
Afinal de contas, os sonhos não encontram limites e por isso tudo é possível e incrivelmente especial aos olhos de uma mente jovem.
No meu caso, o emprego ideal era o de atendente de videolocadora, tal como Quentin Tarantino foi um dia, antes de se tornar o famoso diretor de “Pulp Fiction” e “Kill Bill”.
Passar o dia inteiro rodeado dos filmes, ver os lançamentos em primeiro mão e, principalmente, conhecer e conversar com estranhos sobre cinema me fascinava. Indicar uma fita de acordo com as preferências do cliente, que se tornaria mais íntimo a cada visita, teria sido uma experiência sensacional!
Mais do que um convite a nostalgia, o documentário “Cinemagia” é um retrato histórico dos primórdios do home vídeo no Brasil, pois, apesar da produção focar na origem em São Paulo, os efeitos dessa nova onda foram sentidos por todo país.
A partir de depoimentos daqueles que formaram as bases e desbravaram um mercado ainda virgem no cenário nacional, podemos acompanhar o auge e o declínio do segmento das videolocadoras, que começaram e declinaram pelas mãos da pirataria comercial. Talvez, os serviços de streaming, que facilitaram o acesso aos filmes e conteúdo em tempos de rapidez de consumo, tenham dado o golpe final na indústria do home vídeo.
Em meio a entrevistas com distribuidores, antigos proprietárioss e clientes, é perceptível o carinho e respeito com que os realizadores do documentário, em especial o diretor Alan Oliveira, trataram o tema. Por isso não será incomum se emocionar com os relatos e memórias de um panorama que não existe mais.
É inegável que hoje há uma acessibilidade a cultura infinitamente maior do que há décadas e isso é ótimo, mas no caminho algo se perdeu. Numa vida cada vez mais acelerada acabamos economizamos não apenas o tempo, mas também o contato humano. A interação que antes existia com o atendente da videolocadora, informando os últimos lançamentos ou trocando informações sobre o cinema, cedeu espaço para o controle remoto da TV ou o click do download.
Ver filmes também se tornou um programa solitário, bem diferente da época em que dividíamos o sofá da sala com parentes e amigos para assistir as matanças de Jason Voorhees ou as acrobacias de Van Damme.
Assim, o documentário “Cinemagia”, além de repassar a estrada das videolocadoras, estimula a discussão sobre essas transformações sociais que implicaram na nossa forma de ver a sétima arte.
VHS, DVD, Blu-ray são espelhos de um período e cada experiência vinculada a uma mídia pode ser o roteiro de uma saudosa história.
*Disponível no Prime Channels

