Antes de começar a ler esse texto, ouça a música “O Caderno”, de Toquinho. Eu fico esperando.
Já ouviu? Massa, né? Também me emocionei.
Agora, sim. Vamos ao texto…
Depois de muita insistência da minha filha (taurina raiz), resolvemos trocar o piso da nossa casa. Poeira vai, poeira vem, decidimos alugar um apartamento para ficarmos até que o serviço ficasse pronto.
Na minha mala, roupas, artigos de higiene pessoal, alguns livros e o carregador de telefone.
Na dela, além dos itens acima, o CADERNO.
Pensei comigo… Cadê o MEU caderno? Fiz muito pior do que esquecê-lo num canto… Eu o perdi.
A mim, restou-me imaginar como seria esse reencontro com meu fiel amigo que me acompanhou dos primeiros rabiscos até o beabá…
Se eu o reencontrasse, diria a ele que esse “beabá” da vida é infinito e que jamais poderia tê-lo deixado de lado, pois entre equações e redações, estavam ali registradas grandes memórias.
Perceberia que a caligrafia insegura foi ganhando corpo com o passar do tempo e que os desenhos sem forma e frases soltas escondiam sentimentos sobre cada nova descoberta.
Talvez uma das primeiras coisas que faria ao me deparar com nosso amigo de mola espiral seria pontuar cada fase da vida, criando capítulos sobre a eterna jornada do saber. Provavelmente dividira os registros como AA e DA (antes e depois da adolescência. Ah! A adolescência…). Entre os devaneios, o melhor deles: perceber os hormônios nervosos se conectando à ponta do lápis, aflorando, desde então, minha essência punk-rocker.
Com certeza, encontraria nas páginas do caderno críticas ao sistema educacional que continua insistindo em separar os “melhores” dos “piores”, como se o aprendizado fosse uma corrida de 400 metros com barreira. Quantas vezes vi colegas mudarem o rumo de suas vidas porque lhes diziam que eles não eram bons o suficiente…
Em vez da colaboração, a competição. Em vez do abraço coletivo, o troféu. Pois é… É impressionante como as escolas continuam dando medalhas reluzentes aos seus alunos-destaque, uma espécie de Oscar escolar com direito a aplausos e fotos nos outdoors da cidade. Trata-se de um verdadeiro constrangimento coletivo à toda estrutura educacional. Um estímulo à corrida por holofotes, às falsas amizades e aos casamentos “arranjados”.
Enquanto isso, o nosso herói e fiel escudeiro nunca nos cobrou nada. Guardou nossos erros grosseiros com o mesmo cuidado que registrou as loas dos professores.
Se tivesse meu caderno em mãos, o abraçaria como quem abraça um velho amigo de infância e agradeceria a ele por nunca ter me julgado pelo brilhos momentâneos, mas pelo caminho que continuo percorrendo. Afinal, o verdadeiro aluno-destaque é aquele que continua escrevendo sua própria história sem passar por cima de ninguém.
Ao som do violão do Toquinho, desejo uma ótima semana a todos.
John Mendonça

