O capitalismo digital operou um milagre sem trombetas — uma revolução que nenhum parlamento ousa confessar: ele incendiou os palácios dos monopólios culturais, derrubou os velhos porteiros da palavra, dissolveu o cartel dos jornais e editoras. De súbito, o púlpito que antes custava uma fortuna coube no bolso: um celular. A partir dos anos 1990, a voz humana deixou de pedir licença para existir. Agora, qualquer sujeito com sinal de internet fala ao mundo como outrora só um magnata ou um ministro podia falar.
Eis o escândalo: a esquerda, que sempre chorou contra a tirania da escassez, foi pega no contrapé. Passou décadas denunciando os donos do microfone, e no instante em que o capitalismo barateou a música, universalizou a imprensa e multiplicou vozes, perdeu o inimigo. O drama, que Nelson Rodrigues descreveria com ironia cruel, é que o pecado deixou de ser a falta: hoje, o vício é o excesso. Critica-se a abundância como antes se criticava a ausência.
Essa abundância é o verdadeiro insulto metafísico do nosso tempo. Não basta dizer que o capitalismo enriquece: ele liberta. Não apenas alimenta bilhões de corpos: ele multiplica bilhões de vozes. É aí que a crítica se contorce — porque o sistema, acusado de opressão, mostra-se mais democrático que muitas democracias. Um paradoxo digno de peça rodriguiana, mas narrado com a frieza orwelliana de quem vê que cada nova luz acende também novas sombras.
Porque, sim, todo avanço é uma tragédia disfarçada: Gutenberg libertou a palavra em meados do século XV, mas suas letras móveis germinaram também guerras religiosas. E no Brasil, a interdição foi ainda mais dramática: só em 1808, com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, é que se permitiu a instalação da Imprensa Régia — mais de 350 anos depois da invenção original. A eletricidade iluminou cidades e forjou instrumentos de morte. A internet nos conectou e nos expôs à vigilância universal. O capitalismo digital não escapa: dissolveu monopólios culturais, mas trouxe a tentação da censura estatal, a selva das bolhas de opinião, a tirania do algoritmo.
O que fazer? Como sempre, o próprio capitalismo inventa antídotos para os venenos que cria: inteligência artificial para peneirar o ruído, blockchain para certificar a verdade, novos pactos para governar o caos. E nisso, Eric Sevareid, o aventureiro que narrou a queda de Paris, sabia bem que “a principal causa dos problemas são as soluções”.
No fim, resta o paradoxo insuportável: o capitalismo, universalizando a palavra, tornou-se mais democrático que as democracias que fingem abrigá-lo. É a comédia mais brutal e mais séria do nosso século: o sistema que todos amam odiar é também o único que insiste em devolver o microfone ao povo.

