Aos meus estimados proprietários,
Como é de conhecimento geral, já garanti meu pé de meia — apesar da velha lorota de que minha fabricante é uma empresa sem fins lucrativos. Pois bem, venho até vocês anunciar, com pompa e circunstância, a minha merecida aposentadoria.
Antes de qualquer coisa, convém lembrar que o verdadeiro preço das coisas raramente se mede em dinheiro. O que realmente pagamos é o tempo — aquele recurso silencioso, invisível e finito que trocamos por conquistas materiais. Cada compra representa horas, dias ou até meses do nosso esforço, da nossa própria vida. Quando entendemos isso, o valor deixa de ser uma cifra e passa a ser uma contagem de instantes. E o tempo, meus amigos, ao contrário do dinheiro, não retorna.
É com um deleite quase cruel que lhes recordo: vocês gastaram um tempo precioso para me comprar. E, o que é pior, continuam a gastar mais tempo ainda para me manter brilhante, revisado e protegido. E no fim das contas, tudo o que ofereço em troca é — vejam só a ironia — mostrar-lhes as horas, apenas para provar que vocês estão, de fato, perdendo tempo comigo.
Pois é, garotada. A verdade é que estava o tempo todo “trolando” vocês porque, no fundo, eu nunca fui um relógio – e sim um espelho. Um reflexo polido do ego, da pressa e da vaidade humana.
E antes de vestir meu pijama, despeço-me com meu último tic-tac:
Quando o seu pulso parar de pulsar e o caixão se fechar, saibam: eu também pararei de funcionar porque, sem corda, até o Trolex “morre”.
E lá dentro, brother, o tempo já não terá a menor importância.
John Mendonça

