Ontem visitei uma casa que estava se preparando para morrer.
Mas não era uma morte triste. Era uma morte cheia de sentido.
Na rua Santa Fernanda, nº 172, na Jatiúca, uma casa de cinquenta anos se despede do mundo como quem fecha os olhos devagar. Meu tio Antônio Alves morou ali por meio século: tempo suficiente para que as paredes deixassem de ser paredes e virassem memória.
Morou ali tempo bastante para que aquelas paredes soubessem mais da família do que qualquer outro. A casa viu tudo. E, como toda testemunha silenciosa, jamais contou nada — apenas guardou.
Foi ali que ele criou Rodolfo e Leiloca, e depois os filhos dos seus filhos, integrando mais uma geração da família. Nada de épico: cresceram como se cresce mesmo, um dia depois do outro. Somos mais irmãos do que primos. Foi ali que o riso pequeno virou conversa adulta.
Foi ali, também, que o tempo fez sua travessura mais cruel: a esposa, tia Lívia, partiu de repente, sem aviso, sem ensaio. As paredes aprenderam os nomes, o chão reconheceu os passos, as janelas souberam quem passa e quem fica. Essa ausência não foi preenchida. Mas uma matriarca guardiã (Vera) chegou para tomar conta da cozinha e terminou cuidando de todos: sem querer substituir, mas presentear, presenciar com xêros e temperos. Até que também partiu, naquele mesmo lugar.
Ao final da despedida, meu tio fez um breve discurso. Falou das despedidas que soube fazer: do colégio, da universidade, dos cargos públicos. Todas pertencem à ordem do transitório funcional. São substituíveis. São reversíveis. E há a despedida impossível — aquela que não acontece porque o sentimento não aceita o verbo no passado. O amor não admite fechamento. Ele não conhece conclusão. O luto verdadeiro, talvez, não seja superação, mas convivência com a falta.
Meu tio falou disso com uma serenidade que só os que sofreram muito conseguem alcançar. Estóico sem estoicismo.
A memória da casa é compartilhada entre todos da família Alves e seus amigos: a cor da cerâmica, o terraço, as esquadrias, as madeiras da escada, os quartos, a cozinha. Ela se tornará etérea, mas concreta na lembrança — impermanente como somos.
Em português, comprar um lar não faz muito sentido. Compra-se uma casa. O lar acontece depois, ou às vezes nunca. Aprendi ontem que, no idioma da nossa família, também não faz sentido despedir-se de Lívia.

