O Brasil vive hoje uma imensa crise de confiança. A falta dela, na verdade. Isso vem claro em pesquisas e dados reunidos no novo livro do Professor Felipe Nunes, diretor da Quaest (muitos chamam de ‘novo Ibope’).

      Somos o país no mundo de menor taxa de confiança interpessoal. Não confiamos no vizinho, na caixa do supermercado, no motorista de aplicativo, no entregador do delivery, na cozinheira da lanchonete. Mas confiamos na influenciadora digital que fala qual melhor maquiagem para sombrear olhos, no atleta que recomenda melhor pré treino de academia e até no Presidente dos Estados Unidos.

      Isso é ruim pois nos traz uma baixa crença nas instituições. Governo, Justiça, Polícia… tem quem não confia em médico nem em vacina ou remédio. Seja a vacina CoronaVac ou a Cloroquina. Sim, é política. A polarização exacerbada em abundância nos trouxe isso.

     Tenho que falar que desconfiança é diferente de preconceito. Não, jamais será normal uma mulher ter medo de ir à praia sozinha quando encontra um homem, ou grupo de homens, ela sentir-se desprotegida. Nem quando estamos à noite numa rua e trocamos de lado da calçada para evitar uma pessoa de pele escura. Preconceito, violência contra vulnerável. Isso difere da falta de confiança, vai além. É outra grave crise sócio-nacional.

      Quando não confiamos no governo. A gente até joga lixo no chão. Já ouvi “É difícil a prefeitura limpar mesmo”. Quando desconfiamos da polícia ou da justiça, nos habituamos ao jeitinho brasileiro de burlar pequenas regras. Sem falar na depredação de patrimônios públicos tão somente por que é o meu dinheiro que paga.

      Cremos… em Deus e na família. Era discurso político, virou regra mesmo. Entretanto, politicamente famílias se dispersaram também. E por causa da política a gente qualifica pejorativamente o outro pela opção eleitoral. Uma pena. 

      Todavia vamos ao que resolve. Bom senso. Sensatez. Senso comum. Não enxergar o outro como inimigo, mas sim como parceiro. E uma história real de um grande amigo me traz agora à mente. Ele fechou a empresa, um comércio de rua. Tinha 14 funcionários. Me disse que havia um grande problema com a Justiça Trabalhista. Eu acreditei. Após uns meses o reencontrei e perguntei sobre os desligamentos. Ele me respondeu : “tive sorte”… Em suma, o resumo, foi que nenhum dos funcionários o colocou na justiça. Cumpriram aviso prévio e tocaram a vida depois, ele até ajudou. Colaborou com seus colaboradores para se posicionarem em outras empresas do mesmo ramo, era restaurante. 

      E assim me lembro de uma pesquisa que o MIT – Massachussets Institut of Technology – fez com galinhas. Sim, galinhas.

      Separaram dois grupos. Um com super galinhas e outro com galinhas comuns. A super galinhas eram super… competitivas. Se bicaram até a morte. Ao final do experimento apenas duas existiam, fracas e com saúde debilitada de tanto brigarem para sobreviver. Já as galinhas comuns… operaram o dia a dia com colaboração. Produziram. Puseram ovos, viviam em harmonia, dividindo alimento que era colocado ali. E numa boa criaram seu senso de comunidade próprio.

      Me lembro na faculdade de ter estudado a teoria sociológica de Dunbarr, onde uma comunidade existe com relacionamentos estáveis entre 150 pessoas. Do tipo, uma cidade de 15 mil habitantes possui 100 grupos comunitários. Isso faz diferença na hora da confiança e da co-labor-ação. Labor é trabalho, ação é atitude e co é em conjunto. A solução do Brasil é construir saídas para a colaboração mesmo. 

      E nem vou citar aqui que no Japão qualquer criança se torna responsabilidade coletiva de todos os adultos, com isto eles criam a cultura de abolição à violência contra o menor. E por isso reduzem-se custos de transporte escolar, a criança vai sozinha a pé com amigos até a escola.

     Também nem cito que na Finlândia, país mais feliz do planeta, a infração de trânsito é percentual à renda. Não existe o pobre revolto pois o rico pagou uma multa baixa. É igual para todos, em termos relativos. 

     Não devo rememorar que Singapura, uma cidade-nação, controla por câmeras todos. E aqueles cidadãos que jogarem um resíduo no chão paga uma pena. Também há controle geral até na quantidade de descarga do vaso sanitário e do consumo de água. É quando segurança vale mais que privacidade.

      É a cultura da confiança. Onde confiar é preciso!

    Que esse novo ano seja para mudanças de paradigmas, e confiança.

    Share.