O conhecimento da população brasileira sobre o Holocausto ainda é superficial, segundo estudo inédito apresentado nesta quinta-feira (22), em São Paulo, pelo Grupo ISPO. De acordo com a pesquisa, 46,8% dos entrevistados não sabem definir o genocídio de judeus promovido pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
O levantamento foi realizado em 2025 e encomendado pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), pelo Memorial do Holocausto de São Paulo, pelo Museu do Holocausto de Curitiba e pela organização StandWithUs Brasil. Os dados indicam que, apesar do reconhecimento social da importância do tema, há falta de acesso sistemático, contínuo e qualificado à educação histórica no país.
A apresentação ocorreu no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, no bairro do Bom Retiro, região central da capital paulista, e contou com a presença de dois sobreviventes do Holocausto que vivem atualmente no Brasil, o húngaro Gabriel Waldman, nascido em 1938, e a belga Hannah Charlier, nascida em 1944.
Durante o evento, o representante da Conib, Sérgio Napchan, destacou que o cenário atual, marcado pelo crescimento do antissemitismo, pela banalização da violência e pela disseminação de desinformação histórica, exige enfrentamento direto ao negacionismo e às tentativas de relativização do Holocausto. “Preservar a memória do Holocausto não é um compromisso exclusivo da comunidade judaica. Trata-se de uma responsabilidade coletiva, democrática e civilizatória”, afirmou. Segundo ele, é necessário transformar diretrizes em práticas educativas contínuas, qualificadas e acessíveis.
Sarita Mucinic Sarue, representante do Museu do Holocausto, reforçou o papel da educação no combate aos discursos de ódio. “Nosso propósito é atuar de forma efetiva na sociedade brasileira para que justiça e direitos humanos não se afastem de sua razão de existir. A educação é a melhor forma de combater a desinformação”, pontuou.
Entre os principais resultados da pesquisa, 59,3% dos entrevistados afirmaram ter algum conhecimento sobre o Holocausto, porém apenas 53,2% conseguiram defini-lo corretamente como o extermínio sistemático de cerca de 6 milhões de judeus pelo regime nazista. O desconhecimento se aprofunda em aspectos específicos do tema. Apenas 38,5% identificaram Auschwitz-Birkenau como um campo de extermínio, enquanto 51,6% disseram não saber responder.
A escola aparece como a principal fonte de informação sobre o Holocausto, citada por 30,9% dos participantes. Em seguida vêm filmes e livros, com 18,6%, e a internet e redes sociais, com 12,5%. Museus, memoriais e instituições especializadas foram mencionados por apenas 1,7%, evidenciando o baixo acesso a espaços formais de memória.
O estudo também aponta que as desigualdades socioeconômicas influenciam diretamente o nível de conhecimento. Entre pessoas com renda de até dois salários mínimos, 42,6% acertaram a definição do Holocausto, enquanto esse índice sobe para 87,1% entre aqueles com renda superior a dez salários mínimos.
Apesar das lacunas identificadas, 64,4% dos entrevistados consideram fundamental o ensino do Holocausto nas escolas, e 56,6% atribuem papel prioritário a museus e memoriais. No entanto, o engajamento prático ainda é reduzido. Segundo a pesquisa, 87,3% afirmaram nunca ter participado de palestras, eventos educativos ou visitas a museus relacionados ao tema.

