A arquiteta Karol, moradora, ativista e mãe periférica, comentou em postagem recente nas redes sociais sobre um vídeo gerado por inteligência artificial que “reformava” uma favela, pintando todas as casas de branco, plantando árvores e transformando o lugar em uma espécie de Santorini digital. A mensagem implícita era clara: olha como ficaria lindo se os moradores cuidassem melhor, se tivessem “bom gosto”, se mudassem seu jeito de pensar.
Com ironia precisa, ela respondeu aos comentários: “O pobre tem que mudar o mindset pra conseguir manter a estética da casa bonita e a rua limpa, parar de ter filho pra não precisar fazer puxadinho, aumentar a renda para comprar uma casa fora da área de risco. É tão simples, vocês que complicam.
A ironia contida em sua fala está em mostrar o absurdo disso tudo. Ao dizer que a periferia é feia, ou ao afirmar que os moradores “estragam” o recebido, alguém emite um julgamento de aparência estética, mas ético na raiz — e mal colocado, por confundir categorias insistentemente separadas pela realidade.
Essa confusão entre o feio e o injusto tem intenção: transforma um problema de distribuição de recursos numa questão de gosto pessoal.
O nome disso é espoliação e descreve o mecanismo pelo qual quem trabalha na escala 6×1 é duplamente penalizado: ganha mal no emprego e vive mal na cidade, pois o salário baixo é insuficiente para comprar um pedaço de chão com infraestrutura.

