O Inferno de Dante Alighieri é formado por círculos que descem em direção ao centro da terra. O 9º círculo é o mais profundo e sombrio — é onde fica Lúcifer — e está reservado para os traidores da família.
Thales Naves Alves Machado foi, realmente, um covarde. Muito mais traidor do que traído. Um homem fraco que não suportou existir sem a esposa ou sem a fidelidade que acreditava possuir. Um homem que traiu a humanidade quando amputou o futuro dos próprios filhos — filhos que ele dizia amar, mas que transformou em arma de vingança.
Quando um pai destrói os próprios filhos para atingir a esposa, ele não comete apenas homicídio. Ele trai o pacto mais elementar da existência: o de proteger sua prole indefesa — o que Deus e a natureza colocaram nas suas mãos sob sua guarda.
— Qual culpa aquelas crianças carregavam?
— Nenhuma.
É evidente que relações humanas são complexas. A traição conjugal, quando acontece, é dolorosa e dilacerante. Relações que chegam a esse ponto muitas vezes já estavam apodrecidas por dentro. Separar-se teria sido o caminho civilizado. Mas nenhuma falha conjugal — nenhuma — pode tangenciar a barbárie de destruir a própria descendência e a própria vida.
Assusta perceber que o mal raramente tem aparência monstruosa. Ele trabalha, tem amigos, está em grupos de WhatsApp, ocupa cargos públicos, participa de reuniões e sorri em fotografias. A rotina trivial pode esconder tempestades morais silenciosas.
— E pessoas assim, psicopatas, circulam entre nós.
Não podemos mais continuar confundindo posse com amor, orgulho com honra e controle com cuidado. Enquanto não desenvolvermos um olhar mais atento sobre os sofrimentos mentais daqueles que nos cercam — seja para ajudá-los antes que cruzem o limite da barbárie — qualquer um de nós poderá ser a próxima vítima.
— Às vezes penso que o inferno é aqui.

