Ainda que possuído por certo acanhamento diante da sensação de incompetência quanto à qualidade do que escrevo, alegra-me a oportunidade de publicar sobre as vivências, influências, certezas e contradições que encontro enquanto tento entender a vida e o mundo que me rodeia.
Sendo assim, aos escritores profissionais, peço indulgência. À Jovem Pan Alagoas, agradeço a gentileza e àqueles que me cobram que escreva (leia-se família e amigos), tá aqui a oportunidade de me cobrarem a disciplina para escrever com mais frequência.
Minha ideia é mesclar escritos novos e antigos enquanto comento algum fato que me parece interessante.
Para inaugurar esse espaço, acho por bem me apresentar através de um poema escrito em homenagem a Maceió. A inspiração veio de uma frase do filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Ela resume a visão de Ortega sobre a condição humana, enfatizando que o indivíduo não existe isoladamente, mas em constante interação com o contexto que o cerca.
No meu caso, dedico ao que vivi, em minha infância e adolescência em Maceió, a construção de quem eu me tornei.
Espero que gostem!
Maceió, Eu Sou Você
Como bem disse Ortega y Gasset,
“Eu sou eu e minhas circunstâncias”.
Sou aquilo que vi, vivi e senti,
E o que trago no fundo da minha lembrança.
Por isso, eu sou o caruru de Edite,
Em Pajuçara, na casa da vovó Maliá,
Ao som de valsas do acordeon de mainha,
E dos beijos que vovô Paulo lançava ao ar.
Eu sou o acarajé da baiana da Ponta Verde,
Para comer no bugre no caminho para Guaxuma.
Sou o grude de Riacho Doce, na folha de bananeira,
E a volta para casa com areia na sunga.
Sou o banho de rio em Jacarecica,
Bacia de caju pra vovô tomar o conhaque.
Sou a piscina natural na jangada de cano,
Sorvete de coco da Bariloche ou da Bali.
Sou cuscuz de arroz, munguzá e tapioca,
Queijo de coalho, carne de sol, macaxeira e charque.
Sou fogueira nas ruas em noite de São João,
Estalos Bebé, bomba de mil e traques.
Sou São Pedro, Santa Rita, Catedral e Capuchinhos,
Pingo de Gente, Madalena, Sacramento e Marista,
Pitomba, siriguela e xaxá de maçã verde,
Raspadinha, caldo de cana, coxinha e rolete.
Eu sou Paripueira na festa de Santo Amaro,
E o cheiro de bagaço no caminho da usina.
Sou férias de janeiro com os amigos na Barra,
E a festa de exposição no Parque da Pecuária.
Sou Middô e Gstaad só depois do Divina,
E voltar pro Farol só depois do sol nascer.
Nadar de cueca depois da noitada,
E do barco de pesca ver o amanhecer.
Mas minha parte mais bela é o mar cor de prata,
À tarde, olhando desde o Alagoinhas,
A baía que se curva até Pajuçara,
Mas é verde-esmeralda quando é manhãzinha.
E se nesse frio distante eu sentir nostalgia,
Eu volto a lembrar para não mais esquecer:
As Minhas circunstâncias não saem de mim;
Maceió, meu amor, eu sou feito de você.
André Luis Jucá Correia de Melo
