(Por John Mendonça)
PRIMEIRO ATO
Havia uma pequena aldeia com cerca de 200 habitantes situada nos confins do reino da Dinamarca que era conhecidíssima em toda Europa pela cordialidade e urbanidade com que os plebeus que ali habitavam se tratavam.
Um certo dia, um encarregado do rei conseguiu convencer o líder da aldeia a criar arenas recreativas. Mal sabia o inocente gestor que, quando a sociedade se distrai, não se preocupa com com as ações do governo. A velha política panis et circenses, consagrada pelos políticos romanos, foi um sucesso nos primeiros meses após a inauguração da obra.
SEGUNDO ATO
Na arena eram promovidos vários eventos esportivos e culturais, mas também, diante do formato de coliseu, foi o local escolhido para debates de assuntos de interesse de toda a população da aldeia. Tudo corria muito bem até que pequenos problemas fáceis de ser resolvidos passaram a servir de mote para externar a ira dos plebeus, colocando-os rapidamente em polos opostos.
As agressões foram robustecendo-se com o tempo e a harmonia de outrora esvaiu-se como espumas ao vento.
TERCEIRO ATO
Numa certa primavera, um pequenino morador da aldeia, que em tempos idos contemplava a sinergia positiva do vilarejo – apesar de se incomodar discretamente com alguns distratos para com alguns servos -, resolveu “por a boca no trombone”.
Dissera ele em uma discussão acalorada na, recém denominada, Arena das Feras, que estava estarrecido como a pequena aldeia havia se transformado em um ringue onde todos brigavam contra todos. A situação era mais estúpida do que uma tourada, onde apenas os touros saem perdendo, escancarando o mau cheiro da alma humana. Pois é: Nenhum perfume consegue despistar o olor das palavras malditas.
QUARTO ATO
O tímido morador tinha um plano para devolver à aldeia a paz celestial de outrora. Ele solicitou ao gestor da Arena que lhe fosse dada a palavra para proferir algumas palavras quando a “casa” estivesse cheia. Pedido atendido, ele preparou um discurso à la Cícero, o orador, sugerindo que fossem adotas as seguintes medidas para facilitar o convívio dos plebeus:
1. Tentemos conversar pessoalmente com as pessoas antes de externar os problemas em praça pública, evitando-se, desta forma, constrangimentos desnecessários;
2. Não façamos julgamentos precipitados;
3. Sejamos todos gentis um com os outros em qualquer circunstância. Como dissera Albert Scweitzer, filósofo e teólogo alemão: a gentileza evapora mal-entendidos e hostilidades”.
QUINTO ATO
Após seu discurso simples, embora inflamado, os moradores da aldeia perceberam que já seguiam as sugestões do pequenino morador em um passado não muito distante, mas que a harmonia fora quebrada não por causa da arena, MAS PELO SEU MAU USO.
Como num passe de mágica, no dia seguinte após a fala do morador nanico, os parques da aldeia amanheceram mais floridos, os pássaros cantavam alegremente e a grama ficou mais verde.
Com o tempo, a convivência entre os moradores melhorou, mas nunca mais voltou ao normal, afinal “um vaso depois de quebrado sempre será uma vaso quebrado, mesmo que você consiga colar todos os cacos.”
Ainda bem que vasos remendados também podem abrigar uma flor.

