Esse é o título de ensaio publicado na revista The New Yorker, a indicar que a posição pessimista do ensaista Hua Hsu: a IA não melhora, ela destrói o ensaio universitário.  

    A chegada da IA generativa, como o ChatGPT, está transformando radicalmente a escrita acadêmica universitária e exige uma revisão do propósito da educação superior. Quase todos os estudantes usam IA, embora raramente admitam a extensão de seu uso, diz ele.

    Muitos usam ferramentas diferentes para tarefas específicas: Claude para pesquisa, DeepSeek para raciocínio, ChatGPT para escrita.

    O uso vai de “resumos em bullet points” até a escrita completa de ensaios, com refinamento de prompts. Os estudantes se tornaram “gerentes de projeto” da própria produção textual, razão pela qual o papel tradicional de ensinar redação está em crise.

    Professores agora tentam identificar o que é autêntico na voz dos alunos — uma tarefa cada vez mais subjetiva. Algumas universidades passaram a adotar provas presenciais escritas à mão (blue-book exams), exercícios orais e análises textuais. Trancar os estudantes numa cela, com livros, papel e caneta será o próximo passo?

    Outros professores incorporaram a IA no processo pedagógico, tratando-a como uma ferramenta para brainstorming e revisão.

    O autor sugere que a promessa de produtividade pela IA não equivale, necessariamente, à aprendizagem real. Defende que a experiência artesanal de escrever, ainda que “ineficiente”, ensina habilidades humanas insubstituíveis.

    Todo ensaio de verdade exige conflito interno: o autor precisa pensar, errar, reescrever. Esse processo forma o pensamento crítico. A IA oferece atalhos. Mas só elimina a luta com a linguagem, quando usada preguiçosamente. O mau aluno elimina a formação subjetiva que vem com o ato de escrever, independentemente do estágio tecnológico.

    Há quem defenda – como por exemplo Byung-Chul Han (“Não-coisas”) – que a escrita manual é a única que permite o aprofundamento, sendo o teclado apenas o tatear superficial de ideias.   

    Hua Hsu pondera que os estudantes não são os culpados. Eles apenas se adaptaram ao ambiente moldado por decisões institucionais, tecnológicas e econômicas. O homem e suas circunstâncias.

    O articulista lembra que a educação humanista exige tempo, paciência, reflexão — tudo o que o mundo contemporâneo parece estar descartando. Verdade.

    Não compartilho, no entanto, da opinião de Hua Hsu, de que a AI representa o fim do ensaio acadêmico. Como toda ferramenta, o operador é o responsável pela qualidade do seu uso.

    A AI pode ser um bom parteiro de ideias, uma espécie de Sócrates digital. Lembrando que a qualidade do diálogo socrático depende também do interlocutor: há Trasímaco, mas também Eutífron. Usá-la, portanto, mais como uma ferramenta de interlocução, do que como ghostwriter.

    Além de um simulador de conversa, a IA pode funcionar como espelho simbólico: reflete, questiona e devolve ao usuário suas próprias palavras em novas formas, ajudando-o a ver com mais clareza aquilo que antes era apenas angústia ou ideia amorfa sobre o material estudado.

    A questão não é se a IA vai destruir o ensaio acadêmico. É se deixaremos que ela destrua o que o ensaio representa: o esforço humano de entender o mundo com as próprias palavras. Ainda assim, vale lembrar que a maioria das pessoas vive longe da academia — e compreende o mundo em um melting pot de falas próprias e alheias.

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