
Quando meu amigo Gustavo me sugeriu escrever artigos recorrentes, respondi que não sabia sobre o que escrever, no que ele respondeu, taxativo: “Escreva sobre sua conversão.”
Gustavo é meu amigo desde os 12 anos de idade e nesses últimos 35 anos presenciou essa minha busca pela verdade, seja no espiritismo, no existencialismo, no ateísmo, passando por socialismo, globalismo e alguns outros “ismos” e “gias”, todas as verdades que, para mim, tiveram um prazo de validade curto. Até que, como um filho pródigo, eu venho retornando ao colo da boa e velha Igreja Católica.
Esse processo de retorno já leva mais de 15 anos e teve início graças à influência de alguém que, a princípio, nada tem de religioso. Trata-se de Thomas Sowell, economista, e filosofo negro, que no mês passado celebrou 95 anos de vida.
Crescendo numa família de funcionários públicos estaduais em Maceió dos anos 80, eu ficava muito impressionado com a miséria. Lembro como me causava um profundo sentimento de piedade ver crianças da minha idade pedindo esmola ou cheirando cola enquanto eu passava no carro confortável para a escola ou aulas de inglês. Embora ainda criança, aquelas cenas despertavam em mim uma sensação de injustiça a ponto de me fazer sentir diretamente culpado por estar em uma situação melhor do que muitos.
Na minha mente jovem, alguém era responsável por toda aquela injustiça. Alguém fatalmente tramava de forma mesquinha e sádica o plano de manter a população na miséria, sem um mínimo para uma vida digna. Muito estimulado pelos professores de história do ensino ginasial, figuras como Che Guevara exerciam sobre mim grande fascínio. Me admirava a coragem e o altruísmo de alguém disposto a arriscar a própria vida pelo propósito de eliminar as desigualdades sociais
Eu sentia tudo aquilo e estava convicto de que os ricos eram responsáveis por toda aquela maldade. Embora vivesse o conforto proporcionado pelo esforço de meus pais, o simples fato de ler o manifesto comunista e aprender alguns jargões sobre exploração do proletariado e controle dos meios de produção já era suficiente para me dar uma sensação de arrogante superioridade. Declarar-me de esquerda me fazia sentir uma pessoa melhor, mais humana e superior intelectualmente, muito embora, na prática, eu não fazia nada diferente dos meus amigos de escola e no fundo sabia que havia um tanto de pose naquela minha falsa certeza quanto aos culpados pelas mazelas do mundo.
Mudei-me para os Estados Unidos, patrocinado por meus pais, nos últimos dois anos da faculdade de engenharia, muito embora eu dissesse desprezar o imperialismo ianque. Lembro-me de pendurar um poster do Che no dormitório da faculdade e de como aquela rebeldia me fazia sentir muito mais inteligente do que os meus colegas gringos.
Hoje em dia eu não entendo como consegui conciliar tanta contradição em minha cabeça: se por um lado eu admirava a família digna que sempre amei e a quem sempre fui grato, por outro eu deduzia que a família, a propriedade privada, a hierarquia e a religião católica representavam o atraso. Se por um lado a realidade insistia em me mostrar as consequências positivas de uma vida virtuosa, em contrapartida, eu fingia não enxergar o horror consequente de um sistema utópico que só causou morte e sofrimento por onde foi implementado.
Foi Thomas Sowell quem me ajudou a enxergar minhas contradições. Confesso que o fato de Sowell ser negro, nascido na Carolina do Norte e crescido no Harlem, em meio às dificuldades da Grande Depressão, tiveram um impacto maior em mim. De certa forma, se eu não tinha “lugar de fala”, ele tinha. Marxista em sua juventude, atraído pela crítica à desigualdade, intelectualmente e academicamente superior a mim, Sowell estudou mais e, de fato, tentou implementar, no mundo real, a ideologia em que acreditava na teoria. A diferença entre Sowell e possivelmente outros que se tornaram ditadores assassinos esteve em sua capacidade de mudar de opinião diante dos fatos.
Após tentar implementar sua teoria trabalhando para o governo, ele concluiu: “Fatos sempre foram muito importantes para mim. E os fatos insistiam em demonstrar que o marxismo não iria entregar os resultados que prometia. O problema do campo de justiça social é que eles acreditam que existe um mundo em que quando as coisas não terminam em igualdade para todos, isso significa que alguém cometeu alguma injustiça. É uma tremenda pretensão assumir que seres humanos possuiriam um controle tão grande sobre vidas individuais e coletivas. Olhando a minha própria vida, certas situações mudaram completamente sua trajetória. Percebi que não existe no mundo uma sabedoria absoluta capaz de tomar decisões individuais para todas as pessoas.”
Essa experiência empírica, combinada com o rigoroso treinamento econômico recebido em Harvard, Columbia e Chicago, o levou a rejeitar o socialismo em favor dos princípios do mercado livre, enfatizando evidências, incentivos e escolha individual. A transformação de Sowell de marxista para um dos economistas conservadores mais proeminentes é detalhada em seus escritos, incluindo Uma Odisseia Pessoal, e moldou sua prolífica carreira como autor e acadêmico defensor da liberdade e do raciocínio empírico
Thomas Sowell escreveu mais de quarenta livros, sobre temas como economia, raça, cultura, educação e políticas públicas. Sua inteligência e senso de humor aguçado fazem dele, para mim, o principal intelectual vivo. Seus argumentos, sempre suportados por pesquisa e rigor científico, desmantelam argumentos de ideologias modernas como ideologia de gênero, sistema de cotas, controle estatal e racismo estrutural.
Já quanto a mim, o contato com os escritos de Thomas Sowell deu início à minha própria Odisseia Pessoal. A constatação de que fatos são uns bichos insistentes que não ligam muito para os nossos nobres sentimentos foi um ponto de partida para a minha própria busca pela verdade.
A Verdade.
Eterna, Permanente e resistente às modas do momento.
Parabéns, Thomas Sowell.
