A recente reunião entre líderes norte-americanos e russos no Alasca suscitou interpretações diversas.
Anne Applebaum, fiel à tradição liberal-institucionalista, leu o encontro como sinal da erosão do poder americano, argumentando que, ao abdicar das sanções e da pressão diplomática, Washington teria “perdido suas cartas”.
Jonathan Lemire, em chave semelhante, destacou o vazio da ocasião: um espetáculo sem resultados, em que Putin teria conquistado a vitória simbólica de posar ao lado de um presidente norte-americano.
Filipe Figueiredo, em tom mais sóbrio, preferiu caracterizar o evento como expressão de conveniência mútua, onde tanto Washington quanto Moscou encontraram utilidade política, ainda que nenhum acordo formal tenha emergido.
Essas leituras, embora diferentes, refletem o mesmo dilema: o contraste entre a diplomacia de cúpula — concebida como instrumento de acordos estruturantes — e a diplomacia presidencial — marcada pela improvisação, pelo gesto teatral e pelo valor simbólico imediato.
A diplomacia de cúpula funcionou quando o sistema internacional era governado por poucas potências capazes de impor compromissos duradouros.
O Congresso de Viena estabilizou a Europa porque as monarquias aceitaram limitar suas ambições; Helsinque teve impacto porque refletia o equilíbrio nuclear entre EUA e URSS. Mas em um mundo multipolar, com instituições fragilizadas e líderes pressionados pela política doméstica, a cúpula já não cria arquitetura de poder: oferece, no máximo, um palco de legitimidade.
A diplomacia presidencial, por sua vez, confere flexibilidade, mas carece de continuidade. Os encontros recentes entre Washington e Moscou revelam essa dualidade: produzem imagens de impacto, mas deixam intocados os problemas estruturais. Para Moscou, a legitimidade. Para Washington, a possibilidade de atribuir a terceiros — como Kiev ou Bruxelas — a responsabilidade pela ausência de paz.
O elemento crucial, contudo, não está no encontro bilateral, mas na geometria triangular. Como nos anos 1970, quando a aproximação com Pequim serviu para limitar Moscou, a lógica atual deveria ser impedir a consolidação de um eixo sino-russo duradouro. A Rússia não pode ser vista apenas como agressor na Ucrânia, mas também como variável na equação maior do equilíbrio global. O diálogo não significa aprovação; significa reconhecer que, sem Moscou, qualquer contenção da China será mais custosa e menos estável.
A lição central, portanto, é que nem a indignação moral (como em Applebaum), nem a denúncia do vazio (como em Lemire), nem mesmo a descrição da conveniência (como em Figueiredo) capturam sozinhas o problema. A política externa não é teatro de valores, nem apenas espetáculo de símbolos. É, sobretudo, a arte de transformar gestos em equilíbrio.
Se a diplomacia atual quiser evitar o destino da encenação, precisará subordinar tanto a cúpula quanto o presidencialismo ao cálculo de poder. Só assim o triângulo — Estados Unidos, Rússia e China — poderá ser manejado não como uma roleta de conveniências, mas como uma arquitetura de estabilidade.

