Na São Paulo dos algoritmos e valuations, o crime organizado deixou de ser apenas uma questão de presídio — tornou-se uma questão de mercado. O Primeiro Comando da Capital (PCC), outrora limitado ao sistema carcerário, agora opera com CNPJs, tokens e fundos ESG. A operação “Carbono Oculto” revelou que a facção não apenas sobreviveu à repressão estatal — ela prosperou. E enquanto o Ministério da Justiça debate seminários sobre justiça restaurativa, o PCC já está na próxima rodada de investimento.
Origem e estrutura do PCC
Fundado em 1993, na Casa de Custódia de Taubaté, o PCC surgiu como reação ao massacre do Carandiru. Seus fundadores — Misael Aparecido da Silva, Wander Ferreira, José Felício e outros — estabeleceram um estatuto próprio, com rígida hierarquia e código de conduta. Atualmente liderado por Marcos Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, a organização atua em diversos países da América Latina, com forte presença no tráfico internacional e no sistema financeiro informal.
A Operação “Carbono Oculto” e os dados recentes
Nos últimos dois anos, foram apreendidos mais de R$ 8,9 bilhões em bens e valores ligados ao PCC. A operação “Carbono Oculto”, deflagrada no final de agosto de 2025, mobilizou 1.400 agentes em oito estados, com foco em fintechs e fundos de investimento sediados na Av. Faria Lima, além 1.000 postos de combustíveis em 10 estados. Foram identificadas 40 instituições financeiras digitais que movimentaram cerca de R$ 54 bilhões entre 2020 e 2025, com uso de criptomoedas, contas laranja e redes de postos de combustíveis.
O que é a Operação Carbono Oculto?
É considerada “a maior operação contra a infiltração do crime organizado na economia formal do país” até então, focada em fraudes fiscais, sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, com ramificações financeiras, uso de fintechs, fundos de investimento, postos, distribuidoras, entre outros.
A investigação abrange o período de 2020 a 2025
Envolve importação, adulteração (uso irregular de metanol para adulterar combustíveis etc.), distribuição, comercialização e depois ocultação do patrimônio e reinvestimento ilícito.
Líderes e pessoas com papel central no esquema
Esses são alguns dos nomes apontados nas investigações como líderes ou figuras centrais no diagrama criminoso:
Mohamad Hussein Mourad (“Primo”, “João”, “Jumbo”): Identificado como “epicentro” do esquema. Proprietário de rede de postos, ligado à Aster e Copape.
Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”): Colíder; ligação com Mourad; figura central nas fraudes e distribuição/comercialização de combustíveis.
Marcelo Dias de Moraes: Presidente do Bankrow Instituição de Pagamento.
Camila Cristina de Moura Silva: Diretora financeira da fintech BK (ou da “BK”, fintech apontada como “banco paralelo”).
Lucas Tomé Assunção: Contador vinculado à GGX Global Participações (empresa dona de muitos postos).
José Carlos Gonçalves (“Alemão”): Possui ligação com o PCC, atuava no esquema.
Marcello Ognibene da Costa Batista: Contador de múltiplas empresas com indícios de fraude societária.
Fintechs, bancos e instituições financeiras envolvidos
A fintech BK Bank é apontada como fintech “banco paralelo” no esquema. Foi uma das principais instituições de pagamento investigadas. A empresa Aster (distribuidora de combustíveis) aparece, mas é mais dentro da cadeia de combustíveis (não exatamente uma fintech ou banco).
Também aparece o Bankrow Instituição de Pagamento com Marcelo Dias de Moraes. Há menção de outras instituições de pagamento menores, administradoras de fundos, gestoras, fundos de investimento usados como camadas de ocultação.
Valores e escala
Movimentação pelo esquema: cerca de R$ 54 bilhões entre 2020–2024 por postos, distribuidoras etc. Fintechs envolvidas movimentaram mais de R$ 46 bilhões no mesmo período.
Fundos de investimento usados como camadas de ocultação: pelo menos 40 fundos, entre multimercado e imobiliários, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões. Créditos tributários (federais / estaduais) que se calcularam ou detectaram em termos de sonegação chegam a cifras bilionárias: por exemplo, a Receita Federal fala em sonegação de mais de R$ 7,6 bilhões em impostos estaduais, federais e municipais.
Prisões, mandados e foragidos
Foram expedidos 14 mandados de prisão preventiva. Desses 14, 6 pessoas foram presas até a manhã seguinte após a deflagração da operação. Logo, 8 envolvidos estão foragidos. Os nomes de 8 foragidos foram incluídos em lista de difusão vermelha da Interpol. Entre eles: Mohamad Hussein Mourad, “Primo”, Roberto Augusto Leme da Silva (“Beto Louco”), Daniel Dias Lopes, Miriam Favero Lopes, Felipe Renan Jacobs, Renato Renard Gineste, Rodrigo Renard Gineste, e Celso Leite Soares.
Doutrina penal e repressão às ORCRIMs
Autores nacionais como Luiz Flávio Gomes e Walter Maierovitch defendem o endurecimento penal e o uso de inteligência financeira contra facções.
Internacionalmente, Edgardo Buscaglia, jurista mexicano diante da leniência das autoridades do seu país para com os narcotraficantes, propõe sanções patrimoniais multilaterais, ou seja, o confisco ou bloqueio de bens, ativos e empresas associadas a organizações criminosas, através de decisões que sejam reconhecidas ou executadas por vários países (cooperação internacional judicial e de inteligência financeira). Gary Becker, da Escola de Chicago, sustenta que o crime deve ser economicamente desvantajoso para ser eficazmente combatido.
Jurisprudência favorável à atuação integrada
STJ – HC 598.051/SP: Reconhece a legitimidade da atuação conjunta entre PF, Receita Federal e MPF.
TJ-SP – Apelação Criminal 000XXXX-XX.2022.8.26.0050: Valida provas obtidas por força-tarefa em redes de combustíveis.
TRF-3 – Apelação Criminal 000XXXX-XX.2023.4.03.6100: Confirma a constitucionalidade da cooperação entre agências na descapitalização de ORCRIMs.
O Caso Al Capone e a relevância histórica da força-tarefa
Na Chicago da Lei Seca, Al Capone comandava o contrabando e a lavagem de dinheiro com a mesma eficiência que o PCC hoje opera no Brasil. Foi a atuação da Força-Tarefa dos “Intocáveis”, liderada por Eliot Ness, agente da Receita Federal norte-americana, que levou Capone à prisão — não por homicídio, mas por evasão fiscal. A lição permanece: o crime organizado é vulnerável quando o Estado atua com inteligência e integração.
A segurança pública brasileira, sob a atual gestão do Ministério da Justiça, falha em enfrentar o crime organizado com a contundência necessária. A ausência de políticas criminais voltadas à repressão patrimonial, à cooperação internacional e à inteligência financeira transforma o Estado em cúmplice silencioso. O PCC não é apenas violento — é eficiente, adaptável e lucrativo.
Como bem afirmou Gary Becker:
“A criminalidade floresce onde o custo de delinquir é menor que o benefício de delinquir.”
Se o Brasil deseja evitar que o próximo Marcola seja também CEO de uma fintech premiada, precisará mais do que operações pontuais — precisará de uma política criminal que compreenda que o crime organizado é, acima de tudo, um problema de mercado.
Referencias bibliograficas
Maierovitch, Walter Fanganiello. Novas Tendências da Criminalidade Transnacional Mafiosa. Editora Unesp.
Becker, Gary S. Crime and Punishment: An Economic Approach. (Obra seminal em que Becker expõe sua teoria econômica do crime. Data original: 1968)
Becker, Gary S.; Landes, William M. Essays in the Economics of Crime and Punishment. New York: Columbia University Press / National Bureau of Economic Research, 1974.
Buscaglia, Edgardo – Lavado de dinero y corrupción política: El arte de la delincuencia organizada internacional (2015).
Gomes, Luiz Flávio; García-Pablos de Molina, Antonio. Criminologia. São Paulo: Revista dos Tribunais. (8ª edição).
Maierovitch, Walter Fanganiello. Na Linha de Frente pela Cidadania. São Paulo: Editora Michael-SP.

