Autor: THIAGO MOURA ALVES

Ontem visitei uma casa que estava se preparando para morrer.Mas não era uma morte triste. Era uma morte cheia de sentido. Na rua Santa Fernanda, nº 172, na Jatiúca, uma casa de cinquenta anos se despede do mundo como quem fecha os olhos devagar. Meu tio Antônio Alves morou ali por meio século: tempo suficiente para que as paredes deixassem de ser paredes e virassem memória. Morou ali tempo bastante para que aquelas paredes soubessem mais da família do que qualquer outro. A casa viu tudo. E, como toda testemunha silenciosa, jamais contou nada — apenas guardou. Foi ali que…

Read More

O capitalismo digital operou um milagre sem trombetas — uma revolução que nenhum parlamento ousa confessar: ele incendiou os palácios dos monopólios culturais, derrubou os velhos porteiros da palavra, dissolveu o cartel dos jornais e editoras. De súbito, o púlpito que antes custava uma fortuna coube no bolso: um celular. A partir dos anos 1990, a voz humana deixou de pedir licença para existir. Agora, qualquer sujeito com sinal de internet fala ao mundo como outrora só um magnata ou um ministro podia falar. Eis o escândalo: a esquerda, que sempre chorou contra a tirania da escassez, foi pega no…

Read More

A recente reunião entre líderes norte-americanos e russos no Alasca suscitou interpretações diversas. Anne Applebaum, fiel à tradição liberal-institucionalista, leu o encontro como sinal da erosão do poder americano, argumentando que, ao abdicar das sanções e da pressão diplomática, Washington teria “perdido suas cartas”. Jonathan Lemire, em chave semelhante, destacou o vazio da ocasião: um espetáculo sem resultados, em que Putin teria conquistado a vitória simbólica de posar ao lado de um presidente norte-americano. Filipe Figueiredo, em tom mais sóbrio, preferiu caracterizar o evento como expressão de conveniência mútua, onde tanto Washington quanto Moscou encontraram utilidade política, ainda que nenhum…

Read More

Fernando Pessoa perguntou: “Como é por dentro outra pessoa? (…) Nada sabemos da alma senão da nossa.” Lewis Carroll respondeu pela boca de Humpty Dumpty: “Quando eu uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu escolho… A questão é quem é o chefe.” Entre a constatação poética e a ironia literária está o diagnóstico do nosso tempo: o solipsismo deixou de ser hipótese filosófica para virar vício cultural. Ele invade a política, que passa a girar em torno de narrativas autorreferentes; a arte, que se fecha em circuitos que só falam a si mesmos; a literatura, que às vezes…

Read More

No dia 18 de julho de 2025, o presidente Donald Trump sancionou a GENIUS Act (S.1582/119‑27), a primeira legislação federal dos EUA a regular stablecoins de pagamento, ou seja, criptomoedas lastreadas integralmente em dólares ou ativos líquidos de baixo risco. A nova lei exige auditoria independente, transparência sobre reservas e supervisão federal ou estadual qualificada para qualquer emissor. Mais do que isso: proíbe o Federal Reserve de emitir uma moeda digital para o público. O que o público muitas vezes confunde é que stablecoins não são equivalentes ao Bitcoin — e, na verdade, surgiram como sua negação pragmática. Enquanto o…

Read More

Estava lendo A Montanha Mágica, de Thomas Mann, quando me deparei com uma das passagens mais enigmáticas e atuais do romance. Escrita às vésperas da Primeira Guerra Mundial e concluída antes da Segunda, a obra acompanha Hans Castorp, um jovem engenheiro que sobe aos Alpes para visitar um primo doente num sanatório e ali permanece por sete anos. É nesse microcosmo de pacientes tuberculosos, médicos filosóficos e discussões sem fim que Mann encena um embate civilizacional entre duas forças ideológicas: a razão iluminista de Settembrini e o misticismo autoritário de Naphta. Ambos disputam a alma de Castorp, mas o verdadeiro…

Read More

Esse é o título de ensaio publicado na revista The New Yorker, a indicar que a posição pessimista do ensaista Hua Hsu: a IA não melhora, ela destrói o ensaio universitário. A chegada da IA generativa, como o ChatGPT, está transformando radicalmente a escrita acadêmica universitária e exige uma revisão do propósito da educação superior. Quase todos os estudantes usam IA, embora raramente admitam a extensão de seu uso, diz ele. Muitos usam ferramentas diferentes para tarefas específicas: Claude para pesquisa, DeepSeek para raciocínio, ChatGPT para escrita. O uso vai de “resumos em bullet points” até a escrita completa…

Read More

Trinta e oito mil, setecentas e setenta e duas vidas. Não números. Vidas. Vidas que falavam, que amavam, que sofriam e riam. Vidas que foram assassinadas em 2024 no Brasil. E a média da década, essa frieza estatística que serve para debates televisivos, é de 45 mil por ano. Sim, o país do “jeitinho” contabiliza 470 mil mortos por homicídio numa década. É como se a quase totalidade dos habitantes de Lisboa sumisse em uma década. Não estamos diante de uma crise. Estamos diante de um colapso moral. O problema é regional. A Colômbia, nos informa a The Economist (12/06/2025),…

Read More

Voltei das férias com a alma lavada pelo vento do Bósforo e os olhos repletos das contradições da Turquia. Em Istambul, os séculos se encaram de frente, e a história não dorme em paz. Basta visitar o Palácio de Topkapi e se debruçar sobre a sacada que dá para o estreito: à esquerda, o caminho para o Mar Negro, 500 km de tensão até os portos da Ucrânia e da Rússia; à direita, os Dardanelos, entrada para o mar Egeu e, além, a Grécia — vizinha, rival, herdeira comum de Bizâncio e do Império Otomano. Na bandeira vermelha que tremula…

Read More

Lawrence D. Freedman, com a elegância seca de um veterano das análises estratégicas, propõe na Foreign Affairs uma pergunta incômoda: ainda faz sentido falar em “estratégia” militar num mundo em que as guerras se arrastam por décadas sem começo, meio ou fim? Seu ensaio — The Age of Forever Wars — parece responder com um suspiro cético: talvez não. Freedman parte de um paradoxo que os estrategistas teimam em ignorar — a estratégia, no fundo, é uma ficção bem contada. Durante séculos, generais, estadistas e acadêmicos moldaram a ideia de que a guerra podia ser domada por mapas, teorias e…

Read More