Ancelotti promove 17 mudanças na primeira convocação pós-Copa e inicia novo ciclo da Seleção
Carlo Ancelotti convocou 26 jogadores para os amistosos contra Austrália e Índia. Com apenas nove remanescentes da Copa de 2026, primeira lista após o Mundial marca o início da renovação brasileira de olho em 2030.
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A Seleção Brasileira começou a escrever um novo capítulo nesta quarta-feira (9). Carlo Ancelotti anunciou, na sede da CBF, no Rio de Janeiro, sua primeira convocação após a Copa do Mundo de 2026 e deu o pontapé inicial no projeto que terá como grandes objetivos a Copa América de 2028 e, principalmente, o Mundial de 2030.
Mais do que uma simples lista para amistosos, a convocação representa o começo de uma reconstrução. O Brasil deixou a última Copa ainda nas oitavas de final, após ser derrotado por 2 a 1 pela Noruega, em Nova Jersey. Foi a pior campanha brasileira em um Mundial desde 1990 e a primeira vez em nove edições consecutivas que a Seleção não conseguiu chegar às quartas de final.
Agora, pouco mais de dois meses depois da eliminação, Ancelotti começa efetivamente a montar uma nova Seleção.
O treinador convocou 26 jogadores para três amistosos nesta Super Data Fifa. O Brasil enfrentará a Austrália duas vezes, nos dias 25 e 29 de setembro, e depois viajará para a Índia para um confronto inédito, no dia 3 de outubro.
E um número ajuda a dimensionar o tamanho da mudança promovida por Ancelotti: apenas nove dos 26 jogadores que estiveram na Copa do Mundo de 2026 permaneceram nesta primeira convocação pós-Mundial.
São eles Douglas Santos, Gabriel Magalhães, Marquinhos, Danilo Santos, Bruno Guimarães, Endrick, Raphinha, Rayan e Vinícius Júnior.
Isso significa que 17 jogadores da equipe que disputou a Copa não aparecem na primeira lista do novo ciclo.
A renovação é tão significativa que esta é uma das maiores mudanças promovidas pela Seleção em uma primeira convocação após uma Copa nas últimas décadas. Depois do Mundial de 2010, Mano Menezes manteve somente quatro jogadores. Após 2006, Dunga preservou oito. Ancelotti começa agora com nove remanescentes. Para efeito de comparação, depois da Copa de 2018, Tite manteve 13 atletas.
O próprio Ancelotti já havia indicado depois do Mundial que a Seleção havia chegado ao fim de um ciclo de jogadores importantes. Nomes experientes como Neymar, Casemiro e Danilo deixam de ocupar o centro do projeto e não aparecem nesta primeira convocação, enquanto a comissão técnica passa a olhar com mais atenção para jogadores jovens que possam chegar maduros à Copa de 2030. Outros nomes experientes presentes no último Mundial, como Weverton e Alex Sandro, também ficaram fora.
A ideia, porém, não é simplesmente trocar experiência por juventude ou abandonar todos os jogadores que estiveram na última Copa. Marquinhos, por exemplo, permanece como uma das referências da defesa. O desafio de Ancelotti será encontrar equilíbrio: preservar jogadores consolidados que ainda podem ser importantes e, ao mesmo tempo, construir espaço para novos protagonistas.
E existe uma razão para começar esse processo agora.
Até 2030 são quatro anos para transformar promessas em jogadores preparados para decidir pela Seleção Brasileira. A renovação não pode acontecer apenas no papel ou às vésperas do próximo Mundial. Os novos nomes precisarão acumular minutos, responsabilidades, experiências internacionais e entendimento do modelo de jogo da comissão técnica.
A primeira lista deixa essa intenção bastante evidente.
No gol, a mudança foi completa. Alisson, Ederson e Weverton, os três goleiros que estiveram na Copa do Mundo, não foram chamados. Ancelotti convocou Hugo Souza, do Corinthians, Pedro Morisco, do Coritiba, e Otávio, do Cruzeiro.
Na defesa, aparecem algumas das principais novidades deste começo de ciclo. Arthur Dias, do Athletico-PR, Jair, do Nottingham Forest, e Vitor Reis, do Manchester City, entram no grupo ao lado de nomes mais consolidados como Gabriel Magalhães e Marquinhos.
As laterais também passam por renovação. Matheuzinho, Mauro Júnior e Wesley estão entre os escolhidos, além da permanência de Douglas Santos.
Arthur Dias é um dos casos mais interessantes. Aos 19 anos, o zagueiro do Athletico-PR já vinha sendo acompanhado pela comissão técnica e representa exatamente uma das ideias que Ancelotti e a CBF pretendem implementar neste novo ciclo: aproximar cada vez mais a Seleção principal das categorias de base e identificar cedo jogadores capazes de chegar ao Mundial de 2030 já consolidados.
No meio-campo, a mudança também chama atenção.
Breno Bidon, do Corinthians, e Gabriel Bontempo, do Santos, aparecem entre as novidades. Andrey Santos ganha espaço neste início de ciclo, enquanto Bruno Guimarães e Danilo Santos representam a continuidade em relação ao grupo que esteve na Copa. Douglas Luiz também está entre os escolhidos.
Uma das questões mais interessantes para acompanhar neste novo período está justamente nesse setor.
Com a mudança de geração, Ancelotti precisa encontrar jogadores capazes não apenas de ocupar posições, mas de assumir funções que durante anos tiveram nomes praticamente definidos. É justamente no meio-campo que aparecem algumas das principais apostas da nova geração.
Breno Bidon, em especial, surge como um dos nomes mais interessantes desta primeira lista. O jogador do Corinthians representa o perfil procurado pela comissão: jovem, com potencial de evolução e com quatro anos para adquirir experiência antes da próxima Copa.
A renovação também passa pelo ataque.
Ancelotti conseguiu misturar jogadores que já possuem protagonismo internacional com nomes que podem crescer ao longo do ciclo. Vinícius Júnior, Raphinha, Endrick e Rayan permanecem em relação ao Mundial, enquanto Estêvão volta ao grupo. João Pedro, Pedro e Samuel Lino também estão entre os convocados.
A presença de Endrick e Estêvão chama atenção por outro motivo.
Os dois são apontados há anos como algumas das maiores promessas da nova geração brasileira, mas vivem momentos que exigem acompanhamento de perto no futebol europeu. Estêvão busca maior sequência no Chelsea, enquanto Endrick retornou ao Real Madrid depois de seu período de empréstimo ao Lyon e enfrenta forte concorrência no setor ofensivo, além de questões físicas neste início de temporada.
Ou seja: talento existe, mas transformar essa geração em uma equipe competitiva será provavelmente um dos maiores trabalhos de Ancelotti até 2030.
Para a Seleção, não basta identificar os jogadores mais talentosos. Será necessário acompanhar como cada um deles se desenvolve, quanto joga em seu clube e qual função pode desempenhar dentro da equipe nacional. Os jovens também precisarão acumular minutos, responsabilidades e experiências internacionais.
A preparação para esta convocação mostra que esse trabalho começou antes mesmo da divulgação dos 26 nomes.
Ancelotti, seus auxiliares e profissionais do Departamento de Seleções acompanharam partidas do Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana e dos principais campeonatos europeus.
O próprio treinador esteve recentemente em jogos como Lille x PSG, Tottenham x Newcastle e Chelsea x Brighton. No Brasil, também acompanhou Botafogo x Palmeiras no Nilton Santos. Enquanto isso, diferentes integrantes do Departamento de Seleções foram distribuídos por partidas no Brasil e na Europa.
A movimentação mostra uma mudança interessante no planejamento: a primeira convocação pós-Copa não foi construída apenas em torno dos nomes tradicionais da Seleção. A comissão ampliou o radar para tentar identificar jogadores capazes de fazer parte do próximo ciclo.
Antes de chegar aos 26 convocados, Ancelotti trabalhou com uma relação preliminar muito maior. A imprensa revelou diversos nomes presentes na chamada pré-lista enviada aos clubes, que serviu como base para a comissão definir a convocação final.
Alguns dos jogadores observados acabaram confirmados, casos de Hugo Souza, Matheuzinho e Breno Bidon, do Corinthians; Gabriel Bontempo, do Santos; Vitor Reis, do Manchester City; Pedro e Samuel Lino, do Flamengo; e Otávio, do Cruzeiro. Outros nomes que estavam no radar acabaram ficando fora da relação definitiva.
Esse processo ajuda a mostrar que esta primeira convocação não encerra a renovação. Pelo contrário. A tendência é que Ancelotti utilize as próximas Datas Fifa para observar ainda mais jogadores. Alguns dos 26 chamados agora podem não chegar a 2030, enquanto atletas que ficaram fora desta primeira lista ainda terão oportunidades de entrar no projeto.
Outro ponto importante do planejamento é justamente a aproximação entre a Seleção principal e as categorias de base.
A CBF intensificou a integração entre as equipes, especialmente com as seleções Sub-17 e Sub-20 e com os jogadores que poderão integrar o próximo ciclo olímpico.
A estratégia ajuda a entender por que jogadores ainda muito jovens começaram a entrar no radar da comissão principal.
A intenção é criar uma espécie de linha de continuidade: identificar talentos cedo, acompanhar o desenvolvimento nos clubes e facilitar a transição até a Seleção principal. Jogadores que hoje possuem 18, 19 ou 20 anos chegarão à Copa de 2030 justamente em uma faixa etária que pode representar o auge de suas carreiras.
O próprio planejamento da comissão considera que jogadores que hoje aparecem nas categorias inferiores podem chegar ao próximo Mundial já como peças importantes. Por isso, o trabalho não está restrito aos atletas que atualmente possuem condições de defender a equipe principal.
Os primeiros testes dessa nova Seleção acontecerão longe do Brasil.
No dia 25 de setembro, a equipe enfrenta a Austrália no Queensland Country Bank Stadium, em Townsville, às 7h, no horário de Brasília. O estádio foi inaugurado em 2020 e possui capacidade para mais de 25 mil pessoas.
Quatro dias depois, em 29 de setembro, brasileiros e australianos voltam a se enfrentar, desta vez no Suncorp Stadium, em Brisbane, novamente às 7h de Brasília. O estádio é um dos principais do país e possui capacidade superior a 52 mil espectadores.
O retrospecto contra os australianos é amplamente favorável ao Brasil.
As duas seleções já se enfrentaram oito vezes, com seis vitórias brasileiras, um empate e apenas uma vitória da Austrália. A Seleção marcou 21 gols nesses confrontos e sofreu somente um.
O primeiro encontro aconteceu em 7 de julho de 1988, pelo Torneio do Bicentenário da Independência da Austrália. O Brasil venceu por 1 a 0, com gol de Romário.
O último duelo aconteceu em junho de 2017, quando o Brasil goleou a Austrália por 4 a 0 em Melbourne. Diego Souza marcou duas vezes, enquanto Thiago Silva e Taison completaram o placar.
Aquela partida, inclusive, produziu uma curiosidade histórica: Diego Souza abriu o placar com apenas dez segundos de jogo, no que se tornou o gol mais rápido da história da Seleção Brasileira.
Depois dos dois compromissos na Austrália, a delegação seguirá para a Índia.
No dia 3 de outubro, às 11h de Brasília, o Brasil enfrentará os indianos no Vivekananda Yuba Bharati Krirangan, conhecido internacionalmente como Salt Lake Stadium, em Calcutá.
E esse terceiro amistoso carrega uma curiosidade histórica: será o primeiro confronto entre as seleções principais de Brasil e Índia.
Calcutá possui forte tradição no futebol indiano e já recebeu partidas importantes da modalidade, inclusive jogos da Seleção Brasileira Sub-17 durante a Copa do Mundo da categoria em 2017. Inaugurado em 1984, o Salt Lake Stadium possui capacidade para aproximadamente 63 mil espectadores.
O confronto também possui um componente simbólico. A Índia tem uma forte relação de admiração pelo futebol brasileiro, e a camisa da Seleção possui enorme popularidade no país asiático.
A escolha dos adversários também faz parte do planejamento para o novo ciclo. A Austrália oferece dois testes contra uma seleção com experiência recente em Copa do Mundo, enquanto a passagem pela Índia amplia a presença internacional da Seleção e cria um confronto completamente novo na história da equipe principal.
Os três jogos fazem parte da chamada Super Data Fifa, que proporciona um período maior de convivência e treinamento para a comissão técnica. Para uma Seleção que começa praticamente um novo trabalho em vários setores, o tempo junto pode ser tão importante quanto os próprios resultados dos amistosos.
E os testes não terminam em outubro.
A programação da Seleção prevê mais dois amistosos na Data Fifa de novembro. O Brasil enfrentará o Japão no dia 14 de novembro e Singapura no dia 17. Os dois confrontos serão disputados no Estádio Nacional de Singapura.
Dessa forma, Ancelotti terá cinco partidas ainda em 2026 para experimentar jogadores, testar diferentes formações e começar a desenhar a identidade da equipe para os próximos anos.
A primeira grande competição do novo período será a Copa América de 2028, que surge como uma etapa importante para avaliar o amadurecimento do grupo antes do principal objetivo: a Copa do Mundo de 2030.
A convocação desta quarta-feira, portanto, talvez seja menos importante pelos resultados imediatos contra Austrália e Índia e mais pelo que ela revela sobre o pensamento de Carlo Ancelotti.
Depois de uma Copa frustrante, o Brasil precisa novamente responder a uma pergunta que aparece após quase todo Mundial: quem estará preparado para liderar a próxima geração?
A resposta não necessariamente estará completa nesta primeira lista.
Alguns dos 26 jogadores convocados agora provavelmente não chegarão ao Mundial de 2030. Da mesma maneira, jogadores que sequer aparecem no radar atual poderão se transformar em protagonistas nos próximos quatro anos. Uma reconstrução de Seleção não acontece em uma convocação.
Mas o tamanho da mudança promovida por Ancelotti já oferece uma primeira pista do caminho escolhido.
Apenas nove jogadores da última Copa permanecem. Entram novos goleiros, as laterais ganham alternativas, jovens defensores recebem oportunidades, o meio-campo começa a procurar novas referências e o ataque reúne jogadores consolidados com alguns dos principais talentos da nova geração.
Ancelotti tem quatro anos para encontrar as respostas.
A Copa de 2030 ainda parece distante, mas, para quem pretende chegar ao Mundial com uma equipe madura, competitiva e preparada para suportar a pressão da camisa brasileira, o trabalho começa agora.
A primeira convocação pós-Copa é justamente isso: menos um ponto de chegada e mais o primeiro retrato da Seleção que Carlo Ancelotti pretende construir para 2030.