FIM DE UMA ERA

Lionel Messi se despede da Argentina e encerra uma das maiores histórias do futebol

Aos 39 anos, Lionel Messi anuncia aposentadoria da seleção argentina após mais de duas décadas, 207 jogos, uma Copa do Mundo e uma trajetória que transformou sua relação com o próprio país.

Por Breno Mendonça

Publicado em 31/08/2026 às 12:51

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O mundo continua a girar como sempre. O pão é assado para alimentar os trabalhadores e prepará-los para mais um dia, crianças acordam cedo, vestem seus uniformes, pegam suas mochilas e seguem para a escola. A vida segue seu curso, rotineira, como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Mas, às vezes, o universo capricha.

No planeta bola, Lionel Andrés Messi Cuccittini transformou tudo. Aquele menino fez a pelota brilhar ainda mais quando tocava seus pés, pegou um jogo coletivo e, com as próprias pernas, deu um tom de arte, de mágica e de poesia ao futebol.

Natural de Rosário, na Argentina, Messi cresceu como qualquer outro menino apaixonado por futebol. No entanto, desde cedo, já era evidente que ele possuía algo especial. O talento, a visão e a habilidade de realizar jogadas que ninguém mais conseguia estavam presentes desde os primeiros toques na bola, nos campos de barro e nas quadras de sua cidade.

E se já não bastasse a responsabilidade de ser diferente, Messi nasceu na Argentina. Um país que respira futebol. Um país que, desde 1986, vive na sombra de um nome que se tornou quase uma entidade: Diego Armando Maradona. Não havia como fugir disso. Ser argentino e ser um gênio no futebol significava, inevitavelmente, carregar o peso de ser comparado ao maior ídolo da história do país. Cada drible, cada passe, cada gol, tudo era e sempre foi observado com a lupa da comparação. A sombra de Maradona nunca foi pequena e, talvez, tenha sido uma das maiores pressões que um atleta já precisou suportar.

Só que nem tudo foi fácil no começo dessa história. Aos 11 anos, Messi foi diagnosticado com um problema hormonal que poderia ter mudado completamente o rumo de sua vida, uma condição que afetava seu crescimento. O tratamento era caro, muito além das possibilidades financeiras de sua família. Na Argentina, nenhum clube se dispôs a arcar com os custos. Parecia que tudo havia chegado ao fim.

Parecia, até o dia em que o destino o levou ao Barcelona. Aos 13 anos, ele atravessou o oceano com sua família, levando consigo não apenas sonhos, mas também uma oportunidade de recomeçar. O clube catalão acreditou naquele jovem franzino e sua chegada ficou marcada também pela famosa história do primeiro acordo formalizado em um guardanapo, durante um almoço. A partir daquele momento, o mundo começaria a perceber que algo extraordinário estava surgindo.

Meu fascínio por Messi começou em 2009. Na final da Champions League contra o Manchester United, veio aquele gol de cabeça. Sim, de cabeça. Ele, que nunca teve a altura como uma de suas principais características, subiu entre Ferdinand e Vidic e marcou o gol que ajudou a garantir o título ao Barcelona. Foi naquele momento que percebi: esse cara é excepcional. Foi ali que me apaixonei pelo Messi.

Se aquele gol foi meu ponto de partida, o que veio depois apenas confirmou minha certeza. A temporada 2010/2011 foi, para mim, a obra-prima de um time e de um gênio. E, se existe uma pintura no futebol, ela aconteceu no Santiago Bernabéu. Na semifinal da Champions, Messi pegou a bola, arrancou, passou pelos adversários e invadiu a área como se driblar jogadores daquele nível fosse tão fácil quanto amarrar os cadarços. No fim, marcou um golaço que calou Madrid e encantou o mundo.

Então, em 2012, ele fez algo realmente fora do comum: 91 gols em um ano. Noventa e um. Um número que parece até erro de digitação. É nesse momento que você percebe que Messi nunca foi apenas um jogador. Ele se tornou um capítulo vivo da história do esporte.

E o mais surpreendente é que parece que quem é fã de Messi, de alguma forma, se sente um pouco parte de tudo isso também, porque ele joga para nós. Para quem ama o futebol de verdade. Para quem vibra, chora, sorri e se emociona com aquilo que ele oferece dentro de campo.

Quando eu era criança, ouvia dizer que ídolos eram pessoas que ficavam longe, que eram inalcançáveis. Mas com Messi nunca senti essa distância. Mesmo sendo uma das pessoas mais famosas do planeta, sempre existiu uma simplicidade nele, uma humildade que criou essa ligação com quem estava do outro lado. Messi fez o passe que parecia impossível. Messi fez o drible que desafiava as leis da física. Messi fez o gol que eu vou contar aos meus filhos e aos meus netos.

Durante muito tempo, o mundo tentou contar que a Copa era aquilo que faltava para ele ser um jogador completo, para ser colocado definitivamente nas discussões ao lado de Pelé, Beckenbauer e Maradona. Mas, em 2022, no Catar, a Copa acabou com esse debate.

Lionel Messi levantou a taça mais desejada do planeta, colocou a faixa de capitão no peito e terminou como o melhor jogador da Copa. Ali, gravou seu nome para sempre na história. E, talvez, naquele exato momento, Lionel Messi tenha deixado de ser “o sucessor de Maradona” para ser simplesmente Lionel Messi. A foto dele erguendo a Copa é muito mais do que uma foto. É um símbolo. Lembro de assistir àquele instante e sentir que os gênios, às vezes, são reconhecidos no fim.

Como se tudo isso já não bastasse, a prateleira de prêmios individuais só serve para lembrar o quão absurdo ele é. São oito Bolas de Ouro, recorde absoluto no futebol mundial, seis Chuteiras de Ouro, além de ter sido o melhor jogador das Copas do Mundo de 2014 e 2022 e reconhecido diversas vezes pela FIFA como o melhor jogador do mundo. Prêmios, troféus e reconhecimentos que já nem cabem mais nas estantes, mas que, no fundo, são apenas reflexo de tudo aquilo que ele entregou dentro de campo.

Para mim, e falo com plena convicção, ele só fica atrás do Rei Pelé. E acredite, isso não é uma afirmação qualquer.

Agora, porém, chegou uma parte dessa história que, mesmo sabendo que um dia aconteceria, ninguém queria muito imaginar. Lionel Messi anunciou sua despedida da Seleção Argentina.

Depois de mais de duas décadas defendendo seu país, o camisa 10 decidiu que chegou a hora de parar. Na mensagem de despedida, disse que a decisão “doeu e dói na alma”, afirmou que sempre deixou tudo pela camisa argentina e reconheceu que existem grandes jogadores chegando e que eles também merecem seu espaço.

É difícil imaginar a Argentina entrando em campo e não procurar Messi. Durante anos, isso se tornou quase automático. A seleção entrava em campo e os olhos procuravam o número 10. A bola chegava ao pé esquerdo dele e sempre existia aquela sensação de que alguma coisa diferente poderia acontecer.

E a relação de Messi com a Argentina esteve longe de ser simples. Houve cobranças, comparações, derrotas dolorosas e momentos em que parecia que aquela história jamais teria o final que merecia. Houve a final perdida da Copa do Mundo de 2014, outras decisões que escaparam e até uma primeira despedida da seleção.

Mas Messi voltou.

E talvez isso tenha tornado tudo o que aconteceu depois ainda mais especial. Vieram os títulos, veio a reconciliação definitiva com o torcedor argentino e veio, principalmente, a Copa do Mundo de 2022.

Aquela Copa não transformou Messi em gênio. Ele já era. Também não transformou Messi em um dos maiores jogadores da história. Ele já ocupava esse lugar. O Mundial apenas encerrou uma cobrança que o acompanhou durante praticamente toda a sua trajetória com a camisa argentina.

Agora, depois de tantos anos ouvindo a torcida de dentro do campo, Messi diz que será mais um argentino do lado de fora. Vai torcer, sofrer e apoiar a seleção nos momentos bons e, como ele mesmo escreveu em sua despedida, ainda mais nos ruins.

O mundo segue. O futebol também.

A Argentina continuará entrando em campo. Outros jogadores usarão a camisa 10. Novos craques vão aparecer, novas Copas serão disputadas e novas histórias serão construídas. Mas vai demorar para deixar de ser estranho olhar para a Seleção Argentina e não encontrar Lionel Messi.

Porque ficam os títulos, os recordes, as oito Bolas de Ouro, as seis Chuteiras de Ouro, os 91 gols em um único ano, as atuações nas Copas de 2014 e 2022, as arrancadas, os passes, os dribles e os gols. Fica aquela cabeçada contra o Manchester United em 2009. Fica aquela obra-prima no Santiago Bernabéu em 2011. Fica, acima de tudo, a imagem dele levantando a Copa do Mundo no Catar.

Mas ficam principalmente as lembranças.

Para quem teve a oportunidade de acompanhar essa história, Messi fez parte da nossa própria relação com o futebol. Fez gols que vamos rever daqui a 20, 30 ou 40 anos e lembrar exatamente de como nos sentimos quando aconteceram. Fez jogadas que eu sei que um dia vou contar aos meus filhos e aos meus netos.

O mundo continua a girar como sempre. As pessoas seguem suas rotinas e a vida acontece em seu ritmo habitual. O futebol também seguirá seu caminho.

Mas algumas despedidas não são apenas a despedida de um jogador. São a despedida de uma parte da nossa própria história acompanhando esse esporte.

Lionel Messi encerra sua trajetória com a Seleção Argentina, mas aquilo que ele fez com uma bola nos pés não vai embora com ele.

Obrigado, Messi.

Obrigado por tornar o futebol, e fazê-lo permanecer, a coisa mais linda do mundo.

Tags: Notícias Esporte
JP

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