Cabo Bebeto triplica votos em oito anos e vira o deputado estadual mais votado de Alagoas
Do 12º lugar com 31,6 mil votos, em 2018, o parlamentar do PL foi a 99,2 mil em 2026, crescimento 4 vezes maior que o dos outros líderes; partido depende dele para ter bancada
Ouvir Artigo
O deputado estadual Cabo Bebeto (PL) teve 99.165 votos nas eleições de 4 de outubro, a maior votação para a Assembleia Legislativa de Alagoas desde ao menos 2010. O número é 3,1 vezes o de 2018, quando era o 12º colocado, com 31.573 votos, e 92% maior que o de 2022, quando ficou em segundo, com 51.721.
A reportagem cruzou os arquivos preliminares do TSE, atualizados em 6 e 7 de outubro, com o perfil do eleitorado de cada local de votação, a votação presidencial, as contas de campanha e a evolução do deputado nas redes.
A votação equivale a 5,5% dos votos válidos para a Assembleia (eram 2,1% em 2018 e 3,1% em 2022). Parte do salto é geral: a disputa ficou menos pulverizada, com 127 candidatos com votos, ante 248 em 2022, e os líderes cresceram. A média dos nove candidatos mais votados depois dele subiu 21% sobre 2022; a de Bebeto, 92%. O segundo colocado, Marcelo Victor (MDB), presidente da Assembleia, teve 69.370 votos, 29,8 mil a menos.
Maceió ainda concentra mais da metade dos votos do deputado (52.749, ou 53%), mas a fatia era de 70% em 2018. No interior, a votação passou de 9,5 mil para 46,4 mil. Em Arapiraca, de 996 para 9.240. Ele teve ao menos mil votos em nove municípios; eram quatro em 2022 e um em 2018.
Na capital, a expansão se deu em duas etapas. Em 2022, os maiores ganhos vieram da orla e de bairros de maior escolaridade, como Ponta Verde (de 6,5% para 13,3% dos votos válidos), Jatiúca e Farol. Em 2026, o maior acréscimo em número de votos foi na periferia: Tabuleiro do Martins (+2,7 mil), Benedito Bentes (+2,5 mil) e Cidade Universitária (+2,0 mil). A maior penetração segue no litoral: 16,8% dos válidos na Ponta Verde e 16,5% na Pajuçara.
Alinhado a Bolsonaro e escolarizado.
A análise por local de votação aponta um eleitorado ao mesmo tempo alinhado a Bolsonaro e de maior escolaridade. Onde Flávio Bolsonaro (PL) foi melhor na eleição presidencial, Bebeto também foi (correlação de 0,73; 1 seria associação perfeita). O deputado fez 13,5 votos para cada 100 dados à chapa do PL à Presidência no estado; eram 8,3 em 2022 e 6,0 em 2018. Entre 2022 e 2026, o voto presidencial da direita em Alagoas cresceu 18%; o dele, 92%.
A escolaridade pesa tanto quanto o voto presidencial: em Maceió, o quinto dos locais com mais eleitores de nível superior deu a ele 14,9% dos votos válidos; o quinto com menos, 8% (em 2022, 11,1% e 4%). A análise mostra associação entre lugares, não como cada eleitor votou.
Bebeto reúne 72,5% dos votos do PL para a Assembleia (eram 81,5% em 2022). Com eles, o partido atingiu 2,05 quocientes eleitorais e fez duas cadeiras; sem eles, teria 0,56 e nenhuma. A segunda vaga ficou com Leonardo Dias (PL), que teve 17.178 votos, o 37º entre os candidatos. Dez candidatos com mais votos individuais que ele, de MDB, PP, PSDB, PV e PT, não foram eleitos, efeito do sistema proporcional, em que as vagas são distribuídas primeiro entre os partidos. O cálculo é da reportagem, com dados do TSE, e reproduz a divisão de cadeiras divulgada (MDB 15, PP 3, PT 3, PL 2, PSDB 2 e União 2).
Em março, Bebeto assumiu o comando provisório do PL no estado, depois que o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, dissolveu a executiva estadual e destituiu JHC, então prefeito de Maceió. JHC se filiou ao PSDB e foi eleito governador no primeiro turno, em coligação que, segundo o registro no TSE, incluiu o PL. Bebeto diz que será "independente" na Assembleia e, com Fábio Costa, coordena em Alagoas a campanha da chapa de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar no segundo turno, em 25 de outubro.
Quem era maior. Em 2018, os maiores votos do campo que hoje é o PL eram de nomes que disputavam outros cargos:
- Maurício Quintella: 494 mil votos ao Senado (PR). Deixou o PL em 2021, quando Bolsonaro se filiou; teve 34 mil para federal pelo MDB em 2022.
- Josan Leite: 143 mil ao governo (PSL). Teve 5,7 mil para federal pelo Republicanos em 2022 e não aparece em 2026.
- Flávio Moreno: 143 mil ao Senado (PSL). Teve 15 mil para federal pelo PP em 2022 e 2,8 mil pelo PL em 2026.
- Sérgio Toledo: 98 mil para federal (PR). Foi para o PV e não aparece como candidato em 2022 nem em 2026.
Os cargos são diferentes, e os dados não explicam as razões de cada mudança.
As despesas contratadas da campanha somavam R$ 347,6 mil até 3 de outubro, ou R$ 3,50 por voto, contra R$ 6,62 entre os outros nove mais votados e R$ 16,35 na mediana dos 89 candidatos com contas já apresentadas. O maior gasto foi impulsionamento de conteúdo (R$ 160 mil, 46%). A principal fonte de receita foi doação de pessoas físicas (R$ 262,5 mil), seguida de R$ 160 mil repassados pelo partido (Fundo Especial de Financiamento de Campanha) e R$ 62,9 mil de recursos próprios.
No Instagram, o perfil foi de 22 mil seguidores em janeiro de 2019 para 71 mil em setembro de 2022 e 231 mil em outubro de 2026. Cerca de dois terços do crescimento desde 2022 ocorreu depois de julho de 2025, antes da campanha. Em setembro, o deputado teve mais interações que JHC e Renan Filho nas 12 publicações mais recentes, segundo ranking da TNH1 com a YellowKit, com cerca de um quarto dos seguidores de JHC. Os dados não permitem dizer se as redes impulsionaram os votos ou o contrário.
João Mendonça
Jornalista
Jornalista — Formado em Jornalismo pela Ufal, realizador audiovisual e produtor cultural, participa do Pan News e do Sem Filtro. Acompanhe no Tiktok: @joaomendonca333
Ver todos os artigos