Entre a nostalgia e o conforto, nasce um novo mercado de eventos
Público 40+, memória afetiva e novas formas de consumir entretenimento ajudam a redesenhar a agenda de shows em Maceió
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Quem trabalha há algum tempo com entretenimento aprende que o público nem sempre anuncia que mudou. Primeiro ele muda seus hábitos, passa a escolher determinados eventos, rejeita outros formatos e altera seus critérios de compra. Só depois o mercado percebe o que aconteceu.
E tenho observado uma transformação interessante nos últimos anos.
Uma parcela importante do público adulto não deixou de sair, ouvir música ou frequentar shows. Pelo contrário. Parece estar voltando ao entretenimento com força, mas mais seletiva sobre aquilo que deseja consumir e, principalmente, sobre a experiência que espera receber.
Não se trata apenas de qual artista estará no palco.
Conforto, mesas, atendimento, segurança, qualidade do som, facilidade para encontrar os amigos e a possibilidade de conversar sem abrir mão de levantar e dançar passaram a ter um peso maior na decisão.
É um público que quer pista, mas também quer mesa.
Ao mesmo tempo, outro fenômeno vem ficando cada vez mais evidente: a força da nostalgia como produto de entretenimento.
Shows comemorativos, festas temáticas, bandas especializadas em repertórios de outras décadas, discos de vinil, carros antigos e referências aos anos 60, 70, 80 e 90 voltaram a ocupar espaço não apenas como lembrança, mas como mercado.
A pandemia provavelmente acelerou esse movimento.
Durante aquele período, quando o presente estava cercado de incertezas, muita gente voltou os olhos para coisas que despertavam boas lembranças. E isso aconteceu de maneira bastante concreta com a música.
Um estudo publicado posteriormente analisou mais de 213 mil músicas que passaram pelos rankings do Spotify entre 2019 e 2021 e encontrou um aumento significativo no consumo de músicas antigas durante a pandemia, especialmente nos momentos de menor contato social. A nostalgia funcionou, naquele contexto, como uma espécie de reconexão com tempos, pessoas e experiências emocionalmente importantes.
O mesmo comportamento pôde ser percebido em outros mercados.
Os carros antigos, por exemplo, viveram uma forte valorização naquele período. Em 2021, dados da Hagerty mostraram que aproximadamente 38% dos mais de 37 mil veículos de coleção acompanhados pela empresa haviam aumentado de valor em apenas quatro meses. O interesse por veículos que marcaram outras épocas ganhou força justamente quando muita gente resolveu transformar antigas lembranças e sonhos em experiências reais.
Música e automóvel são mercados completamente diferentes, claro. Mas existe algo que conecta os dois: memória afetiva.
Um Escort XR3, um Opala ou um Fusca antigo não são apenas meios de transporte para quem viveu determinada época. Da mesma forma, uma música de RPM, Legião Urbana, Bee Gees ou Roupa Nova muitas vezes representa muito mais que alguns minutos de melodia.
São lembranças.
E lembranças têm um enorme poder de consumo.
Há ainda uma questão demográfica que o mercado não pode ignorar.
O Brasil está envelhecendo. Segundo o Censo 2022, a idade mediana do brasileiro passou de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022. No mesmo período, a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4%, chegando a 22,2 milhões de pessoas. Em Alagoas, a idade mediana também avançou significativamente, de 25 para 32 anos.
Isso significa que existe uma população adulta cada vez maior, economicamente ativa, socialmente presente e interessada em continuar consumindo cultura e entretenimento.
Talvez o mercado tenha demorado um pouco para perceber isso.
Durante muitos anos, boa parte da comunicação e da oferta de entretenimento pareceu concentrada quase exclusivamente na juventude. Como se, depois de determinada idade, as pessoas deixassem de querer sair, dançar ou descobrir novas experiências.
Não deixaram.
Apenas passaram a escolher melhor.
E existe uma diferença importante entre uma música que faz sucesso e uma música que consegue atravessar gerações.
A velocidade das redes sociais e das plataformas digitais tornou possível transformar uma canção em fenômeno praticamente da noite para o dia. Mas também acelerou o ciclo de substituição desses sucessos.
Isso não significa dizer que não exista música de qualidade atualmente. Existe, e muita.
Mas determinadas canções carregam algo que algoritmo nenhum consegue fabricar: história compartilhada.
Quem viveu intensamente as décadas de 60, 70, 80 e 90 não ouve certas músicas apenas pelo arranjo ou pela letra. Ouve junto o primeiro namoro, os amigos da escola, uma viagem, uma festa ou uma fase inteira da própria vida.
É justamente aí que nostalgia deixa de ser simplesmente saudade e passa a ser também um importante segmento do mercado de entretenimento.
Maceió já dá sinais claros dessa mudança
A programação da cidade nos últimos meses ajuda a perceber o movimento.
Bandas alagoanas como Golden Time, Time Machine e Som de Vinil mantêm repertórios fortemente ligados aos grandes clássicos nacionais e internacionais e encontram um público que não apenas conhece aquelas músicas, mas canta praticamente todas elas.
Em março, por exemplo, a retomada do tradicional Happy Hour do Sesc, com Time Machine e Golden Boys, teve seus ingressos esgotados em poucas horas.
Artistas e bandas nacionais que carregam décadas de repertório também vêm encontrando espaço na agenda alagoana. The Fevers esteve em Maceió em maio, enquanto o Biquini Cavadão se apresentou em agosto, no Space Maceió Shopping, justamente com a turnê comemorativa “A Vida Começa aos 40”.
Pholhas e Renato e Seus Blue Caps são outros exemplos de artistas ligados à memória musical de diferentes gerações que passaram recentemente pelo circuito local.
Não parece ser coincidência.
É mercado respondendo a público.
O próximo passo é vender experiência, não apenas show
E talvez esse seja o ponto mais interessante dessa transformação.
O público 40+ não quer necessariamente apenas assistir novamente aos artistas que ouviu na juventude. Ele também parece disposto a consumir experiências construídas em torno dessas memórias.
É aí que entram cenografia, ambientação, gastronomia, conforto, mesas, encontros entre amigos e eventos capazes de transportar o público para determinada época.
Tenho acompanhado esse movimento também do outro lado, como produtor.
No próximo dia 31 de outubro, Maceió recebe Paulo Ricardo, ex-vocalista do RPM, na Fábrica de Eventos, no Jaraguá. Além da presença de um dos grandes nomes do rock brasileiro dos anos 80, o show marca a chegada a Alagoas da Downtown, marca de eventos consolidada em Recife, que desembarca em Maceió em parceria com a Prime Produções e a FrontStage Entretenimento.
Antes disso, no próximo 19 de setembro, outro projeto aposta ainda mais diretamente nessa relação entre entretenimento e memória afetiva.
A festa De Volta aos Embalos de Sábado à Noite, no Space Shopping, dentro do Maceió Shopping, foi concebida como uma verdadeira viagem pelas décadas de 60, 70 e 80.
Não será apenas uma sequência de shows.
A proposta inclui público caracterizado, cenografia temática, pista de dança, mesas, ambientes inspirados em diferentes décadas e exposição de automóveis antigos, realizada em parceria com o Clube dos Antigomobilistas de Alagoas, o CAAAL, dentro das comemorações pelo Dia do Antigomobilista de Maceió.
No palco estarão Golden Time, Som de Vinil e Média 6 Rock Band, esta última com um tributo à Legião Urbana, enquanto o DJ Júnior Souza assume a pista com clássicos que atravessaram décadas.
O próprio formato comercial do evento coloca as mesas no centro da experiência, permitindo que grupos tenham seu espaço reservado sem abrir mão da pista e da festa.
São projetos diferentes, mas que apontam para uma mesma direção.
Talvez o mercado esteja apenas redescobrindo um público que nunca deixou de existir
Durante muito tempo houve quase uma obsessão do entretenimento pela juventude.
Mas quem passou dos 40 não deixou de gostar de música porque envelheceu. Não deixou de querer dançar, encontrar amigos ou viver novas experiências.
Mudaram apenas alguns critérios.
Talvez queira chegar mais cedo. Talvez prefira saber onde vai sentar. Talvez valorize mais o atendimento, o estacionamento, a segurança, a qualidade do som e aquilo que realmente está sendo entregue pelo preço do ingresso.
E talvez queira, acima de tudo, ouvir músicas que tenham algum significado.
Para os produtores, entender isso abre um mercado enorme.
Para Maceió, significa uma agenda cultural mais diversa.
E talvez o mercado esteja apenas descobrindo algo que sempre esteve diante dele:
o público não envelheceu para o entretenimento. O entretenimento é que está aprendendo a envelhecer com o seu público.
Alan Quintela
Produtor Cultural/Artístico
Alan Quintela é produtor cultural, produtor artístico, produtor musical, técnico de áudio, empresário e funcionário público, pós-graduado em Gestão Pública. Natural de Maceió, construiu sua trajetória profissional unindo experiência técnica, pro...
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