O casamento no corredor do hospital

A história real que mudou meu jeito de fazer medicina

Por Ingrid Ribeiro Marinho
19/10/2026 às 00:00 79 views
Capa do artigo

Ouvir Artigo

Eu já fui madrinha de um casamento onde o altar não era uma igreja, mas o corredor de um hospital.

E antes que você pense que entrou na coluna errada, deixa eu te fazer uma confissão.

Hoje é 18 de outubro, Dia do Médico. E, sinceramente? A rotina quase me engoliu. Entre todos os afazeres do dia, o cansaço bateu e eu decidi que não ia escrever nada sobre a data. Mas agora, no silêncio do quarto, antes de dormir, longe do barulho do mundo e sem nenhum roteiro pronto, um turbilhão de memórias me obrigou a parar. Afinal, do que realmente se trata o ofício de cuidar de alguém?

Para responder a isso, preciso voltar alguns anos no tempo.

Naquela época, eu era apenas uma estudante no internato de medicina, e também estava noiva. Enquanto eu planejava a minha festa de casamento aqui fora (sabe quela fase deliciosa de escolher flores, provar doces e sonhar com a própria festa?), foi nessa época, que eu conheci uma paciente lá dentro que enfrentava um diagnóstico duríssimo. No meio de tantas incertezas, ela tinha um único sonho: vestir branco e se casar. 

Ninguém nos ensina na faculdade a organizar um casamento entre uma prescrição e um plantão. Mas ali, com o coração apertado e uma vontade gigante de fazer a diferença, eu entendi o meu verdadeiro chamado. Lutei com unhas e dentes, ao lado da equipe do hospital, para realizar aquele casamento. E Deus foi abrindo os caminhos para que, aos poucos, cada pedacinho daquela celebração se tornasse realidade, com tudo o que ela havia sonhado.

Não me lembro de todas as prescrições técnicas que fiz naquele internato. Lembro da luz daquela tarde. E lembro de alguém que, por algumas horas, não era paciente: era noiva.

Fui madrinha dela. Aquele "sim" no corredor do hospital me atravessou de um jeito que não tinha mais volta. Ali eu fiz um pacto silencioso comigo mesma: eu nunca seria uma médica de quatro paredes.

O que isso significa?

Não me entenda mal, o consultório é sagrado. É ali que a escuta acontece, que o plano se desenha, que a confiança se constrói consulta após consulta. Mas a vida não cabe em uma sala e ela pulsa lá fora. 

Foi essa promessa que me levou às ações sociais, às ONGs, aos projetos na comunidade e a cada abraço apertado que a medicina me permitiu dar. E para criar movimentos como o Projeto Cuide-se, porque eu acredito, do fundo da alma, que prevenir também é uma forma de amar, e que a medicina precisa ir até onde as pessoas estão.

Mais do que isso: passar pelos cuidados paliativos na minha formação me ensinou que nem toda consulta termina em cura rápida. Às vezes, o melhor remédio que um médico pode dar é presença. É tirar o peso das costas de alguém.

E eu vejo esse peso todos os dias no meu consultório.

Eu cuido de pessoas que lutam contra a obesidade, tanto através de medicações como os que passaram pela cirurgia bariátrica. E quer saber a verdade mais dolorosa que escuto quase toda semana?

As pessoas não chegam até mim machucadas apenas pelo peso na balança. Elas chegam esmagadas pelo peso da culpa. Passaram anos ouvindo que estar acima do peso é "falta de vergonha na cara". Que é "falta de força de vontade". Que é "só fechar a boca". Que a culpa é delas. Mas a medicina que eu aprendi naquele corredor me ensinou exatamente o oposto: ninguém encontra “sua cura” sendo culpado. Ninguém emagrece apanhando da própria consciência. As pessoas só florescem quando são acolhidas. Quando são cuidadas. E essa visão guia cada passo da minha atuação hoje no tratamento da obesidade.

É por isso que estou estreando este espaço hoje aqui na Jovem Pan News.

Eu não quero que esta coluna seja um lugar de palavras difíceis ou regras impossíveis. E, estrear exatamente no Dia do Médico torna tudo ainda mais simbólico. A partir de hoje, esta coluna será a extensão dessa medicina sem paredes: um ponto de encontro para conversarmos, sobre emagrecimento consciente, prevenção, nutrologia e vida real.

Neste dia, minha admiração e meu abraço vão para os meus colegas de profissão. Em especial, agradeço aos mestres e professores que fizeram parte da minha jornada. Vocês me ensinaram que a técnica sem empatia é vazia e que um bom médico se forma tanto na biblioteca quanto à beira do leito. Obrigada por nos passarem esse ofício com tanto amor.

Mas a minha maior homenagem hoje não é para os médicos.

É para vocês, pacientes. Histórias e vidas que cruzam o meu caminho todos os dias e que, sem saber, me ensinam mais do que qualquer congresso. Sem a confiança de vocês, o meu jaleco seria apenas um pedaço de pano branco e a medicina não teria encanto nenhum.

Obrigada por darem sentido à missão que eu escolhi viver. Feliz Dia do Médico, para nós e, principalmente, para quem nos permite ser médicos.

Com carinho,

Dra. Ingrid Ribeiro Marinho

Sobre o colunista

Ingrid Ribeiro Marinho

Médica

Dra. Ingrid Ribeiro Marinho — médica, CRM-AL 8751, pós-graduanda em Tratamento da Obesidade pela ABRAN(Associação Brasileira de Nutrologia). Atua em saúde preventiva, checkup e emagrecimento clínico no Centro Médico Servimed e integra a equipe mul...

Ver todos os artigos
JP

Bate Pronto Alagoas 2ª Edição

Equipe Esquadrão