Agressões contra mulheres em casa sobem quase 29% em dias de jogo de futebol, revela estudo
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública detalha o impacto dos jogos no aumento de lesões corporais e ameaças em cinco capitais do país.
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Um levantamento inédito conduzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a realização de partidas de futebol funciona como um gatilho para o aumento da violência doméstica no país. Apresentada em São Paulo, a segunda edição do estudo Futebol e Violência contra a Mulher indica que, em dias em que os clubes locais vão a campo, as agressões físicas (lesões corporais) contra mulheres registram um salto de 28,8%, enquanto as ameaças sofrem um acréscimo de 27,4% na comparação com dias sem jogos.
A pesquisa analisou estatísticas policiais e o calendário esportivo de cinco grandes capitais — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre — abrangendo o período entre 2023 e 2025. O cenário atual mostra um agravamento em relação à edição anterior do estudo (com dados de 2015 a 2018), que identificou altas de 23,7% nas ameaças e 20,8% nas agressões. Desta vez, além do crescimento geral, chamou a atenção o fato de que a violência física superou os relatos de intimidação verbal.
"O futebol não gera violência doméstica. Mas catalisa para quem já vive em situação de grande vulnerabilidade"
A explicação é de Juliana Brandão, coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A especialista destaca que o evento esportivo atua como um elemento acelerador de abusos pré-existentes.
Vulnerabilidade entre jovens e disparidades raciais
O recorte etário revela que a faixa entre 15 e 29 anos é a mais vulnerável: em dias de jogo, as queixas conjuntas de ameaça e lesão corporal crescem 44% entre a juventude. Ao filtrar estritamente os episódios ocorridos no ambiente doméstico para esse público, as lesões sobem 35,1% e as ameaças têm alta de 26,8%.
O levantamento também identificou diferenças por cor e raça. Entre as mulheres brancas, os casos de lesão corporal registraram avanço de 30,9% e as agressões subiram 36,2% em datas de partida. Já para as mulheres negras, os aumentos foram de 23,2% e 14,6%, respectivamente. Segundo os pesquisadores, a dinâmica de convivência no lar durante os jogos e a possível naturalização da violência diária vivenciada por mulheres negras ajudam a entender esses índices.
Em relação à distribuição ao longo da semana, as ameaças registram os maiores picos nas segundas-feiras, domingos e sextas-feiras. Por outro lado, as agressões físicas concentram-se fortemente nos fins de semana, sobressaindo-se no domingo e no sábado.
Medidas recomendadas para deter os abusos
Para enfrentar o problema de forma estruturada, o Fórum apresentou dez diretrizes estratégicas:
- Atendimento nos estádios: Criação de postos fixos para recebimento de denúncias nas arenas esportivas.
- Ação integrada: Articulação contínua entre poder público, clubes, federações e torcidas.
- Monitoramento ostensivo: Acompanhamento rigoroso de agressores reincidentes e das medidas protetivas.
- Debate sobre masculinidades: Ações educativas para desconstrução de comportamentos machistas.
- Regulação do álcool e apostas: Estratégias preventivas voltadas aos impactos das bebidas alcoólicas e das bancas de apostas (bets).
- Inclusão nas arquibancadas: Fomento a uma cultura de torcida positiva e inclusiva.
- Apoio emocional aos jovens: Programas de inteligência socioemocional direcionados às novas gerações de torcedores.
- Capacitação de atletas: Formação cidadã e social permanente nas categorias de base e no profissional.
- Sanções nos clubes: Criação de protocolos para punir e acompanhar atletas envolvidos em episódios de violência.
- Responsabilização nas organizadas: Banimento de torcedores condenados por agressões contra a mulher.