Davi Davino Filho voltou a falar sobre o chamado “sistema”. Desta vez, porém, não foi preciso nenhum mapa político para tentar localizar o endereço do recado. Pela construção da fala e pelo contexto das alianças, a mensagem parece direcionada ao deputado federal e candidato ao Senado Arthur Lira.
Davi afirmou que lutou até o fim para permanecer no mesmo palanque de JHC e disputar o Senado dentro da chapa encabeçada pelo ex-prefeito de Maceió. Segundo ele, entretanto, “o sistema jamais permitiria que dois jovens de 38 anos, um fosse governador e o outro senador”.
A declaração não cita diretamente Arthur Lira. Mas, na política, nem todo destinatário precisa ser chamado pelo nome para entender que recebeu a correspondência.
O contexto ajuda a explicar. Lira trabalhou pela composição com JHC, em uma negociação que avançou praticamente no limite do prazo para o registro das chapas. O acordo foi fechado aos 45 minutos do segundo tempo, depois de semanas de incertezas e movimentos de bastidores.
Davi, por sua vez, terminou fora da coligação oficial. Ainda assim, fez questão de afirmar que seu voto para o governo continua sendo em JHC. E foi além: disse ter certeza de que o ex-prefeito, sua família e as pessoas mais próximas votarão nele para o Senado, porque conhecem seu caráter e seu propósito.
É justamente nesse ponto que a indireta ganha contornos bem mais diretos.
A outra candidata ao Senado na chapa é Marina Candia, esposa de JHC e apoiada pelo grupo político de Arthur Lira. Portanto, quando Davi afirma publicamente que acredita receber o voto de JHC, da família e do entorno do candidato ao governo, ele coloca sob dúvida a unidade da própria composição firmada com Lira.
Na prática, a mensagem é clara: Davi pode não ter conquistado um espaço oficial no palanque, mas acredita que ainda terá votos dentro da casa política de JHC. É quase uma tentativa de separar a aliança formal da preferência pessoal dos integrantes do grupo.
A declaração também produz uma situação delicada para JHC. Se confirmar apoio a Davi, poderá criar desconforto com Arthur Lira e Marina Candia. Se negar, precisará contrariar publicamente um aliado que continua declarando voto em sua candidatura. Se permanecer calado, permitirá que a versão apresentada por Davi circule sem contestação.
Davi parece explorar exatamente esse dilema. Ao falar em “sistema”, apresenta-se como alguém impedido por uma engrenagem política maior. Ao mesmo tempo, tenta demonstrar que a decisão das cúpulas partidárias não necessariamente representa os sentimentos e votos existentes na base e no entorno de JHC.
O discurso também permite que ele ocupe uma posição eleitoral conveniente: mantém o apoio a JHC, preserva uma ponte com os eleitores do ex-prefeito e, paralelamente, confronta a composição que beneficia sua adversária na corrida pelo Senado.
Não se trata apenas de ressentimento por ter ficado fora da chapa. É uma estratégia para disputar os votos de um mesmo campo político e lançar dúvidas sobre a fidelidade interna da aliança.
Se a declaração não foi um recado para Arthur Lira, então estamos diante de uma coincidência com nome, sobrenome e endereço político.
Agora, resta saber se JHC responderá ou se deixará o silêncio falar por ele.