Política

No Senado, votar no titular também significa eleger suplentes

Exemplos recentes mostram por que o eleitor precisa observar os nomes posicionados atrás dos principais candidatos

Por Carlos Victor Costa
20/08/2026 às 18:59 29 views
Capa do artigo

Ton Molina/Agência Senado

Ouvir Artigo

Você sabe em quem pretende votar para senador. Mas conhece os nomes que poderão assumir o mandato no lugar do candidato escolhido?

Durante as campanhas eleitorais, os holofotes ficam concentrados nos titulares. São eles que aparecem na propaganda, participam dos debates, concedem entrevistas e pedem votos. Os suplentes costumam permanecer nos bastidores, embora possam ocupar a cadeira em casos de licença, renúncia, morte ou nomeação do senador para outro cargo.

E não se trata de uma possibilidade meramente teórica. Alagoas possui dois exemplos recentes.

Fernando Farias assumiu o mandato de Renan Filho em 2023, quando o ex-governador foi nomeado ministro dos Transportes. Mais recentemente, Eudócia Caldas ficou com a cadeira de Rodrigo Cunha depois que ele renunciou ao mandato para assumir a Vice-Prefeitura de Maceió.

Os dois casos demonstram que a escolha dos suplentes está longe de ser um detalhe burocrático. Quem vota no candidato também entrega aos suplentes a possibilidade de exercer um mandato de oito anos — ou parte considerável dele.

Por isso, as composições apresentadas para a eleição de 2026 merecem atenção.

Arthur Lira reúne Gaspar, União Progressista e influência no futebol

Na chapa de Arthur Lira, o primeiro suplente será Luiz Romero Farias. Médico, empresário e ex-secretário de Saúde de Maceió, ele foi indicado para a vaga pelo deputado federal e candidato a vice presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, Alfredio Gaspar.

Romero chegou a ser cotado para ocupar a vice na chapa de JHC durante a eleição municipal de 2024. Também carrega uma ligação familiar conhecida nacionalmente: é irmão de PC Farias, personagem central da política brasileira durante o governo Fernando Collor, no início da década de 1990.

A escolha contempla Alfredo Gaspar e ajuda a aproximar diferentes setores políticos da composição liderada por Lira.

O segundo suplente será Gustavo Feijó, ex-prefeito de Boca da Mata e ex-presidente da Federação Alagoana de Futebol. Com influência nos bastidores da Confederação Brasileira de Futebol, Feijó representa ainda um espaço reservado à Federação União Progressista.

A chapa mistura, portanto, articulação partidária, experiência administrativa e trânsito no meio esportivo.

Eudócia deixa a condição de titular para voltar à suplência

Na chapa de Marina Cândia, a primeira suplente será a própria sogra da candidata: Eudócia Caldas, mãe de JHC.

Ex-prefeita de Ibateguara, Eudócia chegou ao Senado como suplente de Rodrigo Cunha. Com a renúncia do titular, assumiu definitivamente o mandato. Agora, deverá voltar a disputar a mesma posição, desta vez atrás da própria nora.

O movimento é politicamente curioso: Eudócia saiu da suplência, tornou-se senadora e, na eleição seguinte, retorna à condição de candidata a suplente. Ao mesmo tempo, sua presença mantém a cadeira sob a influência direta do grupo familiar e político de JHC caso Marina precise deixar o mandato.

O segundo suplente será Ronaldo Lessa. Ex-governador, ex-prefeito de Maceió e atual vice-governador, ele rompeu com o grupo governista para apoiar o projeto eleitoral de JHC.

Lessa chegou a ser citado como possível candidato a vice-governador, mas terminou posicionado na segunda suplência. A escolha acomoda uma liderança política tradicional e acrescenta experiência à chapa, embora em uma posição com menor visibilidade eleitoral.

Renan contempla Paulo Dantas, o Sertão e a família Bulhões

Renan Calheiros terá o advogado Gustavo Henrique como primeiro suplente. O nome é uma indicação direta do governador Paulo Dantas e reforça a participação do Palácio República dos Palmares na composição da chapa.

Assim como Gustavo Feijó, Gustavo Henrique também possui influência no meio da CBF, e proximidade com integrantes da direção da entidade. Sua escolha combina confiança política do governador com relações construídas fora da estrutura partidária tradicional.

A segunda suplente será Christiane Bulhões, médica e ex-prefeita de Santana do Ipanema. Irmã do deputado federal Isnaldo Bulhões, ela representa o Sertão e uma das famílias com maior influência dentro do MDB alagoano.

A presença de Christiane amplia a representação territorial da chapa e fortalece a participação do grupo dos Bulhões na composição de Renan.

Dr. Wanderley aposta em Rafael Tenório e Camila Paiva

Na chapa de Dr. Wanderley, o primeiro suplente será o empresário Rafael Tenório, ex-presidente do CSA e atual suplente de Renan Calheiros.

Tenório já conhece o caminho até o plenário do Senado. Em 2022, assumiu temporariamente o mandato durante uma licença de Renan. Sua escolha reúne experiência empresarial, atuação no futebol alagoano e participação anterior na própria Casa.

A segunda suplente será a coronel Camila Paiva. Ela foi a primeira mulher oficial do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas a alcançar o posto de coronel e também possui atuação nas políticas de segurança e proteção voltadas às mulheres.

Camila acrescenta à chapa representação feminina e um vínculo direto com o segmento da segurança pública, área historicamente presente no debate político e eleitoral.

Suplência é instrumento de poder

As escolhas mostram como as vagas de suplente são utilizadas para muito mais do que simplesmente completar uma chapa.

Elas servem para acomodar aliados que ficaram fora das posições principais, recompensar partidos, contemplar regiões, atrair grupos sociais, fortalecer candidaturas e preservar a influência de famílias políticas.

Em alguns casos, a suplência funciona como peça de negociação. Em outros, transforma-se em mecanismo de continuidade familiar. Há ainda situações em que o nome escolhido acrescenta recursos, estrutura, experiência administrativa ou capacidade de articulação à campanha.

O problema é que boa parte do eleitorado desconhece essas composições. O candidato principal domina a propaganda, enquanto os suplentes permanecem praticamente invisíveis. Depois da eleição, porém, uma mudança política ou administrativa pode colocá-los no exercício do mandato.

Foi assim com Fernando Farias. Foi assim com Eudócia Caldas. E poderá acontecer novamente com qualquer uma das chapas que disputarão o Senado em 2026.

O suplente pode não ser a estrela da campanha nem o nome lembrado pelo eleitor na hora do voto. Ainda assim, pode terminar sentado na cadeira durante anos. Por isso, antes de escolher um senador, convém olhar também quem está logo atrás dele. No Senado, o voto nunca é dado para apenas uma pessoa.

Sobre o colunista

Carlos Victor Costa

Jornalista

É jornalista com mais de 10 anos de atuação, cobrindo a área de política e economia. Com experiência em campanhas políticas. Graduado em jornalismo, pela Universidade Federal de Alagoas em 2014. Passou por veículos de comunicação como Correio de A...

Ver todos os artigos
JP

Jornalismo / Esporte

Rede