Deus não está morto
Por Bruno Montenegro Ribeiro Dantas
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Quando Nietzsche anunciou que Deus estaria morto, não apontava apenas para a descrença. Registrava o estremecimento de uma civilização que começava a perder o fundamento transcendente de seus valores. O problema não se limita à assertiva apocalíptica acerca da morte de Deus, mas se expande ao vácuo deixado pela tentativa humana de viver como se Ele já não fosse necessário.
Séculos antes, Santo Agostinho intuira o contrário: há no homem uma inquietude que nenhuma posse, prazer ou conquista consegue acomodar por inteiro. Dostoiévski, por sua vez, chegou a reiterar haver no homem um vazio do tamanho de Deus. A alma parece guardar uma espécie de desproporção com o mundo. Deseja o permanente e o absoluto, embora tudo ao redor seja contingente; reconhece o bem, ainda quando dele se afasta. O próprio mal, na tradição agostiniana, não ostenta grandeza substancial autônoma: desvela a privação do bem, sombra onde a luz deixou de alcançar.
Platão ofereceu imagem ainda mais contundente. No Fedro, a alma é uma carruagem conduzida por um cocheiro entre dois cavalos: um nobre e virtuoso, dócil à razão, tende ao alto; o outro, indócil, inclina-se aos apetites, às pulsões e às disposições mais primitivas da carne. Entre ambos, cabe ao homem governar essa tensão. E a vida vai exigir a escolha, a cada instante, entre aquilo que adensa asas e aquilo que nos prende irremediavelmente ao chão.
O homem não se basta, é certo. Está sempre dirigido para além de si — para um sentido, um valor, uma causa ou alguém, talvez Deus. Mesmo quando nega o ser transcendente, conserva perguntas que a matéria e a racionalidade não respondem.
Particularmente, ando com fome de coisas sólidas e com certa ânsia de viver o essencial, para recordar Guimarães Rosa. Ele próprio vai dizer que quando nada acontece há milagres que não estamos vendo.
Deus não está morto. Nós, distraídos pelo barulho do mundo, é que desaprendemos a perceber os sinais de Sua permanência.
Bruno Montenegro Ribeiro Dantas é Juiz de Direito.
Marcos Aragão
Empresário
Empresário e articulista. Escreve sobre política, comportamento e cultura com linguagem clara e visão crítica.
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