Emagrecimento feminino: por que cuidar de si parece tão difícil para mulheres que dão conta de tudo?

O tratamento da obesidade precisa olhar para além da balança e compreender a mulher que existe por trás de tantas responsabilidades

Por Ingrid Ribeiro Marinho
01/11/2026 às 19:12 66 views
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Ela sabe o horário da vacina dos filhos, a data da próxima reunião, o que falta na despensa, a conta que vence amanhã e até o compromisso que o marido esqueceu de colocar na agenda. No trabalho, entrega resultados. Em casa, administra uma pequena empresa que nunca fecha. Cuida dos filhos, organiza a rotina, resolve problemas e encontra soluções para quase tudo.

Mas existe uma área da vida em que ela sente que perdeu completamente o controle: o próprio corpo. E talvez essa seja uma das contradições mais dolorosas da vida de muitas mulheres. Como alguém tão competente para administrar tantas coisas pode se sentir tão incapaz de cuidar de si mesma?

Essa pergunta aparece de diferentes formas no consultório. Às vezes, vem acompanhada da frustração de quem já começou inúmeras dietas, perdeu peso, recuperou tudo e passou a acreditar que lhe falta disciplina. Em outras ocasiões, aparece quando uma mulher conta que já não se reconhece no espelho, que escolhe roupas apenas pelo que ainda consegue vestir ou que sente saudade de uma versão de si mesma que parece ter ficado para trás depois da maternidade.

Existe uma dor que vai muito além dos números na balança: a sensação de ter se tornado tantas coisas para os outros que acabou deixando de ser alguém para si mesma. E há algo que precisamos discutir com mais seriedade: por que ainda tratamos essa dificuldade como uma falha de caráter?

Durante muito tempo, o emagrecimento foi apresentado como uma equação simples: comer menos, gastar mais e ter força de vontade. Quando o resultado não aparecia ou não se sustentava, a responsabilidade recaía quase exclusivamente sobre o indivíduo. A mulher que recuperava o peso era acusada de falta de disciplina. A que não conseguia seguir uma dieta era considerada descomprometida.

Mas a ciência já nos permite compreender essa questão de outra maneira.

A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Seu desenvolvimento envolve a interação de fatores biológicos, genéticos, comportamentais, ambientais e sociais. Sono insuficiente, medicamentos, condições de saúde, alterações nos mecanismos de fome e saciedade, ambiente alimentar e contexto emocional podem influenciar a trajetória do peso. E essa mudança de perspectiva transforma completamente a maneira de conduzir um tratamento.

Quando uma mulher chega ao consultório dizendo que não consegue emagrecer, talvez a pergunta mais importante não seja quantas calorias ela está consumindo. É preciso entender o que está acontecendo na vida e na saúde daquela pessoa.

Como está seu sono? Ela sente fome física ou convive com uma vontade constante de comer? Existe perda de controle alimentar? Faz uso de medicamentos que podem interferir no peso? Apresenta alterações metabólicas ou outras condições clínicas? Como está sua saúde emocional? E, principalmente, como é a rotina que ela precisa administrar todos os dias?

Não adianta entregar um planejamento terapêutico perfeito no papel se ele é completamente incompatível com a realidade de quem precisa preparar o jantar dos filhos, trabalhar, administrar a casa e ainda tentar encontrar algum tempo para si. É justamente aqui que entra uma abordagem 360 graus no tratamento da obesidade.

Não se trata de pedir dezenas de exames indiscriminadamente, procurar uma única explicação escondida ou atribuir qualquer dificuldade a um metabolismo que não funciona. Trata-se de olhar para a paciente de maneira individualizada, investigar os fatores clinicamente relevantes, identificar os obstáculos e construir uma estratégia que considere sua saúde, suas necessidades e as possibilidades reais da sua rotina.

Mais importante do que escolher uma estratégia da moda é saber por que ela está sendo indicada, acompanhar a resposta e ajustá-la quando necessário. Afinal, não existe resultado verdadeiramente sustentável em um plano que exige que a pessoa abandone a própria vida para conseguir executá-lo.

Mas há outra dimensão dessa conversa que merece atenção.

Em muitas mulheres, a busca pelo emagrecimento não está relacionada apenas à aparência. Está ligada à vontade de recuperar a disposição para brincar com os filhos, voltar a escolher roupas pela personalidade e não apenas pelo tamanho, sentir-se confortável em um encontro com o marido ou simplesmente conseguir olhar no espelho e se reconhecer novamente. São desejos legítimos. E não precisam ser tratados como vaidade ou futilidade.

É assim que acredito que o tratamento da obesidade deve ser conduzido. Eu não quero ensinar mulheres a viverem de restrição, como robôs. Quero ajudá-las a entender o próprio corpo e encontrar um caminho de tratamento que funcione na vida que elas têm.

Talvez o primeiro passo para uma relação diferente com o emagrecimento seja abandonar a ideia de que tudo depende de tentar mais uma vez, restringir mais um alimento ou encontrar força para suportar mais uma dieta.
Em vez de perguntar por que você não consegue, talvez seja hora de investigar o que está dificultando esse processo e construir um tratamento que faça sentido para a sua realidade.

E, principalmente, entender que a mulher por trás da mãe, da esposa e da profissional também precisa de espaço para existir. Porque ela não precisa escolher entre cuidar de quem ama e cuidar de si mesma. Precisa, finalmente, compreender que também merece estar na própria lista de prioridades.
Sobre o colunista

Ingrid Ribeiro Marinho

Médica

Dra. Ingrid Ribeiro Marinho — médica, CRM-AL 8751, pós-graduanda em Tratamento da Obesidade pela ABRAN(Associação Brasileira de Nutrologia). Atua em saúde preventiva, checkup e emagrecimento clínico no Centro Médico Servimed e integra a equipe mul...

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