Quando o adversário político passa a ser tratado como inimigo
Ataques pessoais mobilizam eleitores, mas destroem pontes, enfraquecem o debate público e comprometem futuras alianças
IMAGEM GERADA POR IA
Ouvir Artigo
Você já percebeu que a política parece ter deixado de produzir adversários e passou a fabricar inimigos?
A diferença pode parecer pequena, mas muda completamente o funcionamento da democracia.
Na política, o adversário é alguém que pensa diferente, apresenta outro projeto, disputa votos e tenta chegar ao poder. Ainda assim, seu direito de existir, vencer uma eleição e governar deve ser reconhecido.
O inimigo é outra coisa. Ele não precisa apenas ser derrotado nas urnas. Precisa ser destruído moralmente, desmoralizado publicamente e, se possível, eliminado da vida política.
Essa lógica ajuda a explicar por que tantos debates eleitorais abandonaram as propostas e passaram a girar em torno de ataques pessoais, acusações e campanhas de destruição de reputações.
A razão é bastante simples: a emoção mobiliza mais do que a razão.
É muito mais fácil provocar indignação com uma denúncia, um apelido ou um vídeo recortado do que convencer o eleitor por meio de uma discussão séria sobre saúde, educação, segurança ou economia. A política emocional exige menos explicação e produz reações mais rápidas.
As redes sociais aprofundaram esse problema. Os algoritmos costumam premiar aquilo que desperta raiva, medo, revolta e conflito. Um debate técnico dificilmente alcança a mesma repercussão de uma troca de acusações. Com isso, candidatos e grupos políticos encontram um incentivo permanente para aumentar o tom.
Na prática, a política passa a funcionar como uma guerra por atenção. E, nessa guerra, a moderação quase sempre perde espaço para quem grita mais alto.
Em Alagoas, essa dinâmica ganha um ingrediente histórico. A política local sempre foi marcada por lideranças fortes, grupos familiares e disputas que atravessam gerações. Em muitos momentos, a crítica deixa de ser administrativa ou ideológica e passa a atingir a vida pessoal, a família e a honra dos envolvidos.
O problema é que essa estratégia cobra um preço elevado.
Quem transforma todo adversário em inimigo queima pontes que poderão fazer falta mais adiante. Depois da eleição, qualquer governante precisa dialogar, construir maioria, aprovar projetos e negociar com diferentes forças políticas. Não existe democracia baseada apenas na vontade de um único grupo.
Além disso, a fabricação de inimigos produz uma contradição bastante conhecida pelo eleitor. Durante a campanha, determinado político é apresentado como a encarnação de todos os males. Na eleição seguinte, o mesmo personagem pode surgir no palanque como aliado, abraçado por aqueles que antes prometiam combatê-lo até o fim.
A conveniência política muda, mas as declarações permanecem. A internet, para azar dos profissionais da amnésia, também não esquece.
Quando antigos inimigos aparecem juntos sem qualquer explicação convincente, quem paga a conta é a credibilidade da política. O eleitor percebe que parte daquela guerra não passava de encenação eleitoral. O discurso inflamado servia para mobilizar a torcida, não necessariamente para defender princípios.
Isso não significa que a política deva ser feita sem enfrentamentos. Divergências são naturais e necessárias. Fiscalizar, denunciar irregularidades e cobrar coerência fazem parte da democracia. O problema começa quando o objetivo deixa de ser combater ideias, decisões ou práticas e passa a ser simplesmente destruir pessoas.
No fim das contas, a diferença entre um candidato comum e um estadista talvez esteja justamente aí. O candidato pensa apenas na próxima eleição e precisa de inimigos para manter sua base mobilizada. O estadista compreende que política não é eliminar quem pensa diferente, mas conviver com as divergências e construir consensos sempre que o interesse público exigir.
Em Alagoas, fica a pergunta: os ataques pessoais partem mais dos grupos políticos tradicionais ou das lideranças que se apresentam como representantes do novo? Talvez a resposta revele que, quando o assunto é destruir adversários, a velha e a nova política se parecem muito mais do que gostariam de admitir.
Carlos Victor Costa
Jornalista
É jornalista com mais de 10 anos de atuação, cobrindo a área de política e economia. Com experiência em campanhas políticas. Graduado em jornalismo, pela Universidade Federal de Alagoas em 2014. Passou por veículos de comunicação como Correio de A...
Ver todos os artigos