A pauta que colocou Júlia Nunes no centro da eleição
Discurso de Júlia Nunes sobre violência contra a mulher se espalha e fortalece sua candidatura
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Júlia Nunes pode estar deixando a condição de promessa para se transformar em um dos fenômenos eleitorais de Alagoas. Candidata a deputada federal pelo PSD, a advogada conseguiu ocupar um espaço estratégico ao abraçar o combate à violência contra a mulher justamente quando o tema ganhou força na campanha.
Não se trata apenas de escolher uma bandeira popular. Júlia conseguiu associar sua candidatura a uma pauta que dialoga diretamente com mais da metade do eleitorado e que, ao mesmo tempo, obriga os demais candidatos a se posicionarem.
O maior sinal de que a estratégia funcionou está no comportamento dos adversários e de outras lideranças políticas. Quando vários candidatos começam a falar sobre o mesmo assunto que uma candidatura colocou no centro do debate, é porque aquela candidatura conseguiu interferir na agenda eleitoral.
Foi o que aconteceu nas últimas semanas.
O senador Renan Calheiros pediu a impugnação da candidatura de João Neto, condenado em segunda instância por violência doméstica. Posteriormente, o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas indeferiu o registro do candidato por quatro votos a três. A decisão ainda poderá ser analisada pelo Tribunal Superior Eleitoral, enquanto a defesa de João Neto nega a agressão.
Marina JHC, candidata ao Senado, também afirmou que vem sendo atacada durante a campanha pelo fato de ser mulher. Arthur Lira, Marx Beltrão e Fábio Costa, cada um com seus interesses e estratégias, igualmente passaram a participar do debate sobre violência, respeito e representação feminina.
Isso não significa que todos estejam seguindo Júlia Nunes ou que ela seja responsável, sozinha, pela presença do tema na eleição. Seria um exagero. Mas há um dado político impossível de ignorar: Júlia percebeu o potencial dessa pauta antes de boa parte dos concorrentes e conseguiu fazer dela uma marca de campanha.
Na política, estabelecer o assunto sobre o qual os outros precisam falar já representa uma vitória importante. Quem define a pauta não controla necessariamente o resultado da eleição, mas passa a disputar o controle da narrativa. E eleição também se vence no campo da narrativa.
Nos bastidores, levantamentos internos apontam uma evolução da candidata. Júlia também vem sendo elogiada por analistas e integrantes do meio político pela maneira como se movimenta durante a campanha. Ela demonstra capacidade de aproveitar oportunidades, manter coerência no discurso e ampliar sua presença sem depender exclusivamente das velhas estruturas partidárias.
É justamente aí que mora sua principal vantagem e também o seu maior desafio.
A pauta da violência contra a mulher abriu espaço para Júlia, mas uma bandeira, por mais forte que seja, não elege ninguém sozinha. Para transformar crescimento em mandato, ela precisará converter visibilidade em voto, ampliar sua presença no interior e construir uma estrutura capaz de enfrentar candidatos tradicionais, muitos deles donos de bases eleitorais consolidadas há décadas.
O PSD montou uma chapa competitiva, com forte presença feminina, e trabalha com a expectativa de eleger até três deputados federais. Se essa projeção se confirmar, a disputa interna ficará ainda mais interessante. Júlia poderá ser beneficiada pelo desempenho coletivo da legenda, mas também terá de superar concorrentes do próprio partido na corrida pelas vagas.
Até aqui, ela já conseguiu algo que muitos candidatos não conseguem durante uma campanha inteira: deixar de ser apenas mais um nome na lista e passar a ser tratada como uma candidatura com identidade própria.
Chamá-la agora de fenômeno eleitoral consumado seria precipitado. Urna não se impressiona com elogios de bastidor e pesquisa interna, convenhamos, quase sempre chega perfumada para agradar quem a encomendou. Mas ignorar o crescimento de Júlia também seria um erro.
Ela encontrou uma pauta, construiu uma narrativa e fez outros atores políticos entrarem no debate. Agora falta a parte mais difícil: transformar influência sobre a campanha em votos suficientes para chegar a Brasília.
Se conseguir, Júlia Nunes não será apenas uma surpresa do PSD. Poderá se tornar uma das principais novidades da política alagoana nesta eleição.
Carlos Victor Costa
Jornalista
É jornalista com mais de 10 anos de atuação, cobrindo a área de política e economia. Com experiência em campanhas políticas. Graduado em jornalismo, pela Universidade Federal de Alagoas em 2014. Passou por veículos de comunicação como Correio de A...
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