Cultura popular não é atração de abertura
Enquanto Maceió reúne mais de 30 grupos de Bumba Meu Boi neste fim de semana, vale uma reflexão: por que ainda precisamos lembrar que tradição também é espetáculo, economia e entretenimento?
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Depois de mais de duas décadas trabalhando com produção cultural e eventos, algumas coisas ainda me incomodam no nosso mercado.
Uma delas é a maneira como, muitas vezes, tratamos a cultura popular.
Gostamos de dizer que ela representa nossas raízes, nossa identidade e nossa história. Colocamos manifestações tradicionais em campanhas institucionais, utilizamos suas cores, seus personagens e seus símbolos para apresentar Alagoas ao turista.
Mas, quando chega a hora de montar o grande palco, investir em estrutura, comunicação e divulgação, muitas vezes o protagonismo muda de endereço.
A cultura popular acaba entrando como abertura, intervalo ou complemento.
E talvez esteja na hora de mudarmos um pouco esse olhar.
Essa reflexão me veio novamente nesta semana porque Maceió recebe, a partir desta sexta-feira, a 33ª edição do Festival Municipal de Bumba Meu Boi. Serão três dias de apresentações no Estacionamento de Jaraguá, reunindo mais de 30 grupos das categorias especial e de acesso.
Mas quero ir além da agenda do festival.
Quando um boi entra na arena, o público enxerga alguns minutos de espetáculo. Por trás daqueles minutos existem meses de trabalho.
Existem músicos, brincantes, coreógrafos, costureiras, artesãos, cenógrafos, pessoas construindo alegorias, ensaiando passos, preparando figurinos e mobilizando comunidades inteiras.
Isso também é indústria cultural.
Isso também movimenta dinheiro.
E, acima de tudo, isso também é entretenimento.
Precisamos rever o conceito de “grande evento”
No nosso mercado, ainda existe uma tendência de associar a expressão “grande evento” quase automaticamente à presença de um artista nacional conhecido.
Eu mesmo trabalho e trabalhei inúmeras vezes com atrações nacionais e sei da importância delas. Elas movimentam público, turismo, bares, hotéis, transporte e toda uma cadeia econômica.
Não existe qualquer necessidade de escolher entre uma coisa e outra.
A questão é diferente.
Precisamos entender que o tamanho cultural de um espetáculo não pode ser medido apenas pelo tamanho do cachê ou pela quantidade de seguidores de quem está no palco.
Na edição do Festival Municipal de Bumba Meu Boi realizada em 2025, por exemplo, a estimativa oficial foi de cerca de 20 mil pessoas por noite em Jaraguá.
Vinte mil pessoas.
Se um artista nacional reunisse esse público, provavelmente falaríamos imediatamente em grande sucesso de público.
Então por que ainda existe certa dificuldade em enxergar uma manifestação tradicional com a mesma dimensão?
Talvez porque durante muito tempo tenhamos colocado a cultura popular numa espécie de prateleira separada do entretenimento.
De um lado estaria aquilo que chamamos de show.
Do outro, aquilo que chamamos de folclore.
Na prática, essa divisão faz cada vez menos sentido.
Tradição não significa passado
Outro erro que considero perigoso é imaginar que preservar uma tradição significa mantê-la congelada.
Cultura popular não é peça de museu.
Ela precisa dialogar com a cidade que existe hoje, conversar com jovens, utilizar novas tecnologias, profissionalizar sua comunicação e encontrar novas maneiras de alcançar público.
Preservar não significa impedir a transformação.
Significa garantir que a essência continue existindo enquanto novas gerações encontram razões para fazer parte dela.
E Maceió tem demonstrado recentemente que há público para isso.
Há poucas semanas, Jaraguá recebeu a primeira edição do Festival Internacional de Cultura de Maceió, que reuniu mais de 150 grupos e artistas, com representantes de Alagoas, de outros estados e também de países como México, Colômbia e Croácia.
Agora o bairro volta a ser ocupado pelo Bumba Meu Boi.
Existe aí uma oportunidade que considero muito maior do que simplesmente preencher um calendário de eventos.
Maceió pode transformar sua própria identidade cultural em produto turístico, econômico e de entretenimento durante todo o ano.
Mas para isso é necessário continuidade.
Não adianta lembrar desses grupos apenas quando chega a data do festival.
É preciso criar circulação, formar público, estimular apresentações, documentar histórias, apoiar novos integrantes e, principalmente, oferecer condições profissionais para que essas manifestações consigam competir pela atenção das novas gerações.
Cultura também precisa de palco
Quem trabalha com espetáculo sabe que palco comunica importância.
Iluminação comunica importância.
Som de qualidade comunica importância.
Divulgação comunica importância.
Quando oferecemos estrutura profissional a uma manifestação cultural, não estamos descaracterizando sua origem. Estamos dizendo ao público que aquilo merece ser visto.
E talvez essa seja uma das grandes responsabilidades de quem trabalha hoje com cultura em Alagoas.
Temos artistas, ritmos, personagens e tradições que dificilmente seriam encontrados em qualquer outro lugar do mundo.
Precisamos parar de enxergá-los apenas como lembranças de onde viemos e começar a percebê-los também como parte daquilo que podemos ser.
Neste fim de semana, quando mais de 30 grupos entrarem na arena em Jaraguá, haverá naturalmente competição, torcida e festa.
Mas haverá algo maior acontecendo ali.
Estarão entrando naquela arena bairros, famílias, histórias, memória e pessoas que decidiram dedicar parte de suas vidas para manter uma tradição viva.
E talvez seja justamente isso que precisamos aprender a enxergar.
Cultura popular não deveria ser a atração que prepara o público para o grande espetáculo.
Ela já é o grande espetáculo.
Alan Quintela
Produtor Cultural/Artístico
Alan Quintela é produtor cultural, produtor artístico, produtor musical, técnico de áudio, empresário e funcionário público, pós-graduado em Gestão Pública. Natural de Maceió, construiu sua trajetória profissional unindo experiência técnica, pro...
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