Muito além dos números: o desafio de reconhecer a música brasileira
Pelo terceiro ano consecutivo, integro a Academia do Prêmio Multishow. Mais do que uma satisfação pessoal, a experiência provoca uma reflexão sobre gosto, relevância, diversidade e a responsabilidade de avaliar a produção musical brasileira.
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Premiar música nunca foi simplesmente escolher aquilo de que mais gostamos.
Em uma época em que praticamente tudo pode ser transformado em números, visualizações, reproduções, seguidores, compartilhamentos e posições em rankings, talvez seja cada vez mais necessário lembrar que a importância de um trabalho artístico nem sempre cabe em uma planilha.
Uma música pode alcançar milhões de pessoas e desaparecer poucos meses depois. Outra pode não liderar nenhuma plataforma e, ainda assim, apresentar uma identidade artística capaz de influenciar músicos, movimentar uma cena ou permanecer relevante durante anos.
É justamente aí que começa a dificuldade de avaliar música.
Nos últimos dias, recebi uma notícia que me deixou particularmente feliz: pelo terceiro ano consecutivo fui convidado a integrar a Academia do Prêmio Multishow, uma das mais importantes premiações da música brasileira.
Naturalmente, existe uma satisfação pessoal nisso. Depois de tantos anos trabalhando com artistas, produção cultural, produção musical, áudio e entretenimento, participar novamente desse processo é também um reconhecimento que recebo com muita gratidão.
Mas confesso que encaro o convite muito mais como responsabilidade do que como status.
Desde 2019, o Prêmio Multishow conta com uma academia especializada na escolha de parte dos indicados e vencedores. Nas edições recentes, esse colegiado reuniu mais de 800 profissionais, entre artistas, jornalistas, empresários e representantes de diferentes áreas, gêneros musicais e regiões do país. Parte das categorias permanece sob decisão do público, enquanto outras são definidas pelos integrantes da Academia.
E considero essa combinação particularmente importante.
Popularidade e qualidade não são necessariamente a mesma coisa
O público precisa ter voz. Afinal, música popular existe justamente porque encontra pessoas, cria identificação e movimenta emoções.
Mas popularidade não pode ser o único critério de reconhecimento artístico.
Hoje, um bom trabalho de marketing, uma tendência nas redes sociais ou alguns segundos utilizados repetidamente em milhares de vídeos podem transformar uma música em um fenômeno nacional em pouquíssimo tempo.
Isso faz parte da nova indústria e não vejo problema algum nisso. As plataformas digitais democratizaram acessos, derrubaram barreiras e permitiram que artistas que talvez nunca fossem ouvidos pelas antigas gravadoras chegassem diretamente a milhões de pessoas.
O cuidado necessário é não confundirmos alcance com qualidade, viralização com carreira e números com relevância artística.
Quem trabalha nos bastidores sabe que a música vai muito além daquele artista que aparece diante das câmeras.
Por trás de uma grande canção existem compositores, arranjadores, instrumentistas, produtores musicais, técnicos, engenheiros de áudio, diretores, equipes criativas e profissionais que muitas vezes passam despercebidos pelo público.
Eu vivi boa parte da minha vida profissional justamente nesse ambiente.
Já acompanhei artistas antes de subirem ao palco, estive em estúdios, montagens, passagens de som, ensaios e produções. E essa experiência inevitavelmente muda a maneira como se escuta uma música ou se observa um espetáculo.
Você começa a perceber detalhes que vão além do gosto pessoal.
E talvez esse seja o maior desafio: separar gosto de avaliação
Todos nós temos nossos artistas preferidos.
Há estilos que ouvimos em casa, músicas que fazem parte da nossa história e outras que simplesmente não conversam conosco.
Mas integrar uma academia de música exige um exercício diferente.
Nem sempre aquilo que eu escolheria para colocar na minha playlist é necessariamente o trabalho que considero mais relevante artisticamente em determinada categoria.
É preciso observar produção, interpretação, originalidade, execução, identidade, impacto e contexto.
E existe ainda uma questão que considero fundamental: o tamanho e a diversidade da música brasileira.
Somos um país continental. A música que nasce em Recife não é necessariamente a mesma que domina as rádios em Goiânia. O que acontece nas periferias de São Paulo pode ser completamente diferente do que movimenta festas no Pará, na Bahia ou em Alagoas.
Por isso considero tão importante que uma academia nacional seja composta por profissionais de diferentes regiões e experiências.
Quando participo desse processo, não imagino que esteja oficialmente falando em nome de Alagoas. Mas inevitavelmente levo comigo o olhar de alguém que construiu sua trajetória trabalhando com música no Nordeste, convivendo com artistas, produtores e públicos que nem sempre estão no centro da indústria nacional.
E esse olhar também precisa existir.
Reconhecer também é ajudar a construir memória
Uma premiação não determina sozinha quem é ou não um grande artista.
O tempo continua sendo provavelmente o júri mais rigoroso de todos.
Mas prêmios ajudam a registrar momentos, reconhecer trabalhos, apresentar novos nomes e construir parte da memória de uma geração.
Quando olhamos para premiações de dez, vinte ou trinta anos atrás, estamos também olhando para um retrato da música que aquele período produziu.
Por isso cada escolha carrega uma responsabilidade.
Nesta primeira etapa da Academia do Prêmio Multishow 2026, já encaminhei minhas indicações. Mais adiante, participarei novamente do processo que ajudará a escolher os vencedores das diferentes categorias.
É uma experiência que, mesmo no terceiro ano, continua tendo para mim um significado especial.
Não apenas porque meu nome está entre os profissionais convidados.
Mas porque, depois de tantos anos dedicados à música, continuo tendo a oportunidade de fazer aquilo que sempre fez parte da minha trajetória:
ouvir, observar, descobrir artistas e acreditar que a música brasileira continua sendo muito maior do que qualquer ranking consegue mostrar.
Alan Quintela
Produtor Cultural/Artístico
Alan Quintela é produtor cultural, produtor artístico, produtor musical, técnico de áudio, empresário e funcionário público, pós-graduado em Gestão Pública. Natural de Maceió, construiu sua trajetória profissional unindo experiência técnica, pro...
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