Alan Quintela

Produtor Cultural/Artístico

Cultura, música e entretenimento

Quando um carro deixa de ser veículo e vira memória

O reconhecimento do Clube do Automóvel Antigo de Alagoas como entidade de utilidade pública reforça uma ideia que vai muito além da paixão por motores: preservar automóveis antigos também é preservar cultura, identidade e história.

Por Alan Quintela
22/10/2026 às 13:46 29 views
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Há objetos que envelhecem. E há objetos que, com o passar do tempo, deixam de cumprir apenas a função para a qual foram criados e começam a contar histórias.

Um automóvel antigo pertence a esse segundo grupo.

Para algumas pessoas, olhar para um carro com 30, 40 ou 50 anos significa enxergar apenas uma máquina ultrapassada, sem a tecnologia, o conforto ou a eficiência dos veículos atuais. Para quem convive com o antigomobilismo, a percepção é completamente diferente.

Ali estão o design de uma época, soluções de engenharia, formas de consumo, publicidade, comportamento e, principalmente, memória afetiva.

Sou associado do Clube do Automóvel Antigo de Alagoas, o CAAAL, e também um entusiasta desse universo. E talvez a convivência com outros colecionadores tenha reforçado em mim algo que já percebia antes: quase nunca alguém se apaixona por um carro antigo apenas por causa do carro.

Existe uma história por trás.

Pode ser o automóvel que o pai teve. O carro em que a família viajava nas férias. O modelo que o adolescente admirava passando pela rua, mas não tinha condições de comprar. Ou simplesmente uma máquina que simboliza determinada época da vida.

Às vezes, décadas depois, aquela pessoa finalmente consegue comprar exatamente o carro que sonhava ter aos 18 anos.

Nesse momento, ela não está adquirindo apenas aço, borracha, vidro e motor.

Está comprando de volta uma lembrança.

Antigomobilismo também é cultura

Foi por isso que considerei importante o reconhecimento concedido neste ano ao CAAAL.


A Lei Municipal nº 7.742, promulgada em 16 de abril de 2026, reconheceu oficialmente o Clube do Automóvel Antigo de Alagoas como entidade de utilidade pública em Maceió. O CAAAL é uma associação sem fins lucrativos, com atuação formal desde 2013, e o reconhecimento representa mais do que uma chancela institucional: reforça a importância de um trabalho contínuo de preservação da memória automotiva, de valorização do antigomobilismo e de aproximação desse patrimônio com a sociedade.

Pode parecer apenas um ato burocrático, mas vejo um significado maior nisso.

É o poder público reconhecendo institucionalmente uma atividade que também contribui para preservar parte da nossa memória.

Maceió já possui, inclusive, o Dia Municipal do Antigomobilista, celebrado em 30 de setembro, inserindo esse universo no calendário oficial da cidade. 

E quando observamos o tamanho que esse movimento alcançou, percebemos que não estamos falando de um pequeno grupo reunido em torno de um hobby particular.

Em março deste ano, a nona edição do Maceió Retrô, promovida pelo CAAAL no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, reuniu mais de 150 veículos clássicos, vindos de Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, com acesso gratuito ao público.

Esse movimento ganhou ainda um novo capítulo em 19 de setembro, com a primeira edição da festa De Volta aos Embalos de Sábado à Noite, criada com a proposta de se tornar, a cada ano, uma das celebrações em homenagem ao Dia Municipal do Antigomobilista. O evento reuniu exposição de carros antigos, bandas com repertórios inspirados em outras décadas, ambientação temática e um público disposto a mergulhar naquela atmosfera. Mais do que uma festa, foi uma verdadeira viagem no tempo, mostrando como automóveis, música, comportamento e memória afetiva podem dividir o mesmo espaço e contar, juntos, a história de uma geração.

Um carro também conta como vivíamos

Preservar um automóvel é preservar um pedaço da história industrial e social.

Um Fusca ajuda a contar a história da popularização do automóvel no Brasil. Um Opala fala de outra fase da nossa indústria e de outro padrão de consumo. Um Escort, um Monza, um Gol GTI ou tantos outros modelos imediatamente nos transportam para determinados períodos.

Mudam os painéis, os tecidos dos bancos, os rádios, as cores, os desenhos das carrocerias.

Mas mudam também as propagandas, a música que se ouvia dentro deles, as estradas, os hábitos das famílias e até aquilo que uma sociedade entendia como luxo ou modernidade.

Por isso, quando alguém restaura corretamente um automóvel, buscando peças, acabamento, rodas, tapeçaria e detalhes originais, existe ali algo semelhante ao trabalho realizado na preservação de outros objetos históricos.

E preservar não significa simplesmente guardar.

Carro antigo foi feito para andar.

Talvez seja justamente isso que torne o antigomobilismo tão interessante: é uma memória que continua em movimento.

Há também economia por trás da paixão

Existe ainda um aspecto que muitas vezes passa despercebido.

O antigomobilismo movimenta oficinas especializadas, funileiros, pintores, tapeceiros, mecânicos, eletricistas, comerciantes de peças, empresas de restauração, eventos, turismo e uma cadeia de profissionais que depende diretamente da preservação desses veículos.

Um encontro de carros antigos movimenta restaurantes, hotéis e comércio, além de atrair famílias inteiras que talvez nunca tenham pensado em si mesmas como admiradoras do antigomobilismo.

A criança olha curiosa.

O jovem descobre um modelo que só conhecia pela internet.

E alguém mais velho aponta para determinado carro e imediatamente conta:

“Meu pai teve um desse.”

Pronto.

Naquele instante, o automóvel deixou de ser exposição e voltou a ser história.

Preservar também é contar quem fomos

Naturalmente, gosto de carros.

Gosto da mecânica, do design, das diferenças entre modelos e daquela sensação difícil de explicar que determinados automóveis provocam em quem vive esse universo.

Mas quanto mais conheço o antigomobilismo, menos acredito que ele seja apenas sobre carros.

É sobre pessoas.

Sobre gerações.

Sobre lembranças que se cruzam em torno de uma máquina.

O reconhecimento do CAAAL como entidade de utilidade pública ajuda a dar dimensão institucional a um trabalho que seus associados vêm realizando há anos: reunir pessoas, preservar veículos e permitir que parte dessa história continue acessível ao público.

Porque daqui a algumas décadas, talvez alguém queira entender como nós vivíamos.

Poderá consultar livros, fotografias e vídeos.

Mas também poderá estar diante de um automóvel preservado, abrir a porta, sentir aquele interior, observar aquele painel e compreender um pouco melhor como era outra época.

E talvez seja justamente esse o maior valor do antigomobilismo: manter viva uma parte da nossa história de uma forma que livros e fotografias, sozinhos, não conseguem.

Porque preservar um carro antigo não é apenas conservar uma máquina.

É preservar lembranças, histórias e uma parte da cultura de uma geração.

Sobre o colunista

Alan Quintela

Produtor Cultural/Artístico

Alan Quintela é produtor cultural, produtor artístico, produtor musical, técnico de áudio, empresário e funcionário público, pós-graduado em Gestão Pública. Natural de Maceió, construiu sua trajetória profissional unindo experiência técnica, pro...

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