A soberba majoritária: o futebol sul-americano dá sua resposta dentro de campo
Flamengo cai diante do Estudiantes, Palmeiras reencontra o fantasma de 1968 e a final da Libertadores reacende a rivalidade entre Brasil e Argentina.
Ouvir Notícia
O futebol costuma ser implacável com quem confunde favoritismo com superioridade garantida. Na noite desta quinta-feira (22), o Maracanã foi palco de mais um capítulo dessa história. Diante de sua torcida, com um elenco milionário e praticamente todo o segundo tempo com um jogador a mais, o Flamengo não conseguiu superar o Estudiantes. Após dois empates sem gols, a equipe argentina venceu por 3 a 2 nos pênaltis e garantiu vaga na final da Copa Libertadores de 2026.
A eliminação não representa apenas o fracasso esportivo de um dos principais candidatos ao título. Também alimenta uma discussão recorrente no continente: até que ponto o poder financeiro dos clubes brasileiros criou uma sensação de superioridade sobre os demais adversários sul-americanos?
O Flamengo teve mais posse de bola, ocupou o campo ofensivo e tentou pressionar. Entretanto, encontrou uma equipe organizada, disciplinada e consciente de suas limitações. Mesmo com a expulsão de Baltasar Rodríguez no início do segundo tempo, o Estudiantes manteve suas linhas compactas e dificultou as infiltrações brasileiras. O domínio territorial rubro-negro não se transformou em eficiência ofensiva.
Na disputa de pênaltis, Fernando Muslera assumiu o protagonismo. O experiente goleiro uruguaio defendeu as cobranças de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique, transformando a frustração brasileira em uma noite histórica para o clube de La Plata.
A classificação argentina também recuperou uma história que atravessa quase seis décadas. Em 1968, Palmeiras e Estudiantes decidiram a Libertadores em uma série de três partidas. Os argentinos venceram o primeiro confronto por 2 a 1, enquanto os brasileiros reagiram com uma vitória por 3 a 1 no Pacaembu.
Naquela época, o saldo de gols não determinava o campeão. Foi necessário um terceiro encontro, disputado no Estádio Centenário, em Montevidéu. O Estudiantes venceu por 2 a 0 e conquistou sua primeira Libertadores.
Agora, 58 anos depois, o destino coloca os mesmos adversários diante um do outro, no mesmo estádio. A decisão de 28 de novembro também acontecerá no Centenário, palco onde o Palmeiras conquistou o título de 2021 diante do Flamengo.
A coincidência é histórica, mas exige uma distinção importante: embora exista a narrativa de que a diretoria palmeirense teria aceitado levar o desempate de 1968 para Montevidéu por razões financeiras, essa alegação não deve ser apresentada como fato comprovado sem documentação que a sustente. O que está confirmado é a realização da partida no Uruguai e a vitória argentina.
O crescimento financeiro dos clubes brasileiros é uma realidade. Investimentos elevados, elencos qualificados e maior capacidade de contratação transformaram o Brasil em protagonista das últimas edições da Libertadores. Entretanto, o futebol sul-americano continua demonstrando que orçamento não substitui organização tática, competitividade e capacidade de decisão.
O Estudiantes chega à sua sexta final continental, depois de conquistar quatro títulos, em 1968, 1969, 1970 e 2009. O Palmeiras, por sua vez, busca o tetracampeonato após levantar a taça em 1999, 2020 e 2021.
Existe ainda um ingrediente que amplia a dimensão do confronto. Brasil e Argentina chegam à decisão empatados com 25 títulos da Libertadores. Quem vencer colocará seu país isoladamente na liderança histórica da competição.
É justamente nesse cenário que a chamada soberba majoritária merece reflexão. O protagonismo brasileiro não pode ser confundido com um direito adquirido de vencer. O Estudiantes mostrou isso diante do Flamengo. Agora terá a oportunidade de repetir, contra o Palmeiras, uma conquista que permanece viva na memória de seus torcedores desde 1968.
O futebol argentino, mesmo enfrentando dificuldades econômicas e limitações de investimento, continua produzindo equipes capazes de competir em alto nível. A Libertadores mantém características que ultrapassam o poder financeiro: intensidade, disciplina coletiva, tradição e capacidade de adaptação às diferentes circunstâncias de uma partida.
O Palmeiras chega à final com méritos e argumentos esportivos para conquistar o título. O Estudiantes, por sua vez, carrega tradição, organização e a confiança de quem já contrariou os prognósticos.
No dia 28 de novembro, em Montevidéu, estará disputando a supremacia continental entre brasileiros e argentinos. E em jogo também uma das lições mais antigas do futebol: a história respeita os grandes clubes, mas não se curva ao favoritismo.