Maceió perde área verde de 30 mil m² para construção de condomínio; legislação urbana levanta debate sobre preservação ambiental
Terreno com vegetação de Mata Atlântica na Serraria dará lugar a quatro torres residenciais
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Ministério Público investiga a retirada das árvores, enquanto caso expõe os desafios da legislação municipal para conciliar expansão imobiliária e preservação ambiental.
Uma área verde de aproximadamente 30 mil metros quadrados, equivalente a três hectares ou cerca de quatro campos de futebol, está sendo desmatada no bairro da Serraria, na parte alta de Maceió, para dar lugar a um condomínio residencial com quatro torres. A retirada das árvores começou na segunda-feira (19) e provocou preocupação entre moradores e ambientalistas.
O terreno fica nos fundos do supermercado Atacarejo, na região da Serraria e do Murilópolis. O espaço abriga vegetação de grande porte, incluindo jaqueiras, mangueiras, cajueiros, palmeiras, coqueiros e outras espécies. Além da cobertura vegetal, a área funciona como abrigo para aves e pequenos animais silvestres, contribuindo para o equilíbrio ambiental de uma região cada vez mais ocupada por construções.
O empreendimento, denominado Park Plaza Murilópolis, é de responsabilidade da Solidez Engenharia. A construtora informa que possui as autorizações ambientais e urbanísticas necessárias. A supressão vegetal foi autorizada pela Alurb em 2 de outubro de 2026, enquanto o alvará de execução das obras foi expedido pelo Iplam em 13 de outubro.
O episódio levanta uma discussão que vai além da legalidade da obra: até que ponto a legislação urbana de Maceió consegue efetivamente preservar suas áreas verdes? Embora o município disponha de Plano Diretor, regras de zoneamento e instrumentos de proteção ambiental, o caso evidencia que áreas particulares com vegetação significativa podem receber autorização para supressão e implantação de empreendimentos imobiliários.
A legislação urbanística da capital tem como referências o Plano Diretor de 2005 e o Código de Urbanismo e Edificações de 2007. O novo Plano Diretor, encaminhado à Câmara Municipal em 2026, abre uma oportunidade para discutir mecanismos mais rigorosos de preservação dos fragmentos de vegetação ainda existentes dentro da cidade. A questão central é se as regras atuais oferecem proteção suficiente a esses espaços, especialmente diante da expansão imobiliária.
A retirada da vegetação também pode trazer consequências para os moradores. Segundo o urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a perda da cobertura arbórea pode elevar a temperatura, reduzir a infiltração da água da chuva, ampliar riscos de alagamentos e comprometer habitats naturais. A implantação das quatro torres ainda poderá aumentar a demanda sobre o trânsito, o abastecimento de água e a infraestrutura da região.
O Ministério Público de Alagoas instaurou procedimento para apurar a supressão vegetal e verificar se as autorizações concedidas estão de acordo com a legislação ambiental. A Alurb sustenta que o processo seguiu as normas municipais e que houve compensação vegetal mediante entrega de mudas e insumos para plantios em espaços públicos.
O caso da Serraria coloca em evidência uma escolha sobre o futuro de Maceió: permitir o crescimento imobiliário sem comprometer a preservação dos últimos espaços verdes da capital. Mesmo quando uma intervenção é legalmente autorizada, permanece o questionamento sobre o custo ambiental de substituir árvores maduras e ecossistemas consolidados por concreto.