JHC foi à sabatina e os dados cobraram a conta
De hospitais aos Gigantinhos, declarações do candidato entram em choque com fatos, números e a própria história da gestão municipal
Reprodução TV Pajuçara
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Com a disputa pelo Governo de Alagoas cada vez mais apertada, JHC já não podia se dar ao luxo de fugir das entrevistas. Foi para o confronto de ideias, apresentou seu diagnóstico do Estado e tentou estabelecer diferenças entre aquilo que pretende fazer e o que encontrou pela frente como adversário. O problema é que, quando o discurso eleitoral encontra os fatos, a retórica sozinha não resolve.
Na saúde, JHC afirmou que Alagoas passou por um “desmonte”. É uma declaração forte, especialmente para quem se lembra de como era a estrutura hospitalar do Estado dez ou quinze anos atrás.
A saúde pública alagoana está longe de ser perfeita. Há filas, demora por consultas, exames e cirurgias e uma série de problemas que precisam ser enfrentados. Isso é fato. Mas reconhecer as deficiências atuais não significa apagar o que foi construído.
Delmiro Gouveia, União dos Palmares e Porto Calvo, por exemplo, passaram a contar com hospitais regionais e leitos de UTI. Serviços que antes estavam concentrados principalmente em Maceió foram levados para o interior.
Pode-se discutir se é suficiente. Evidentemente, não é. Pode-se cobrar mais eficiência, médicos, exames, redução das filas e melhor atendimento. Deve-se, aliás. Mas existe uma diferença considerável entre dizer que a saúde precisa avançar e afirmar que houve um “desmonte” justamente durante um período de expansão da rede hospitalar.
A contradição aumenta quando JHC promete “despolitizar” a saúde estadual. Durante sua própria gestão em Maceió, a Secretaria Municipal de Saúde também esteve inserida na composição política do grupo que comandava a Prefeitura. Ao deixar a prefeitura, ele ainda indicou Lara de Tenorinho Malta, que chegou ao comando da pasta ligada politicamente ao grupo de JHC. Então, afinal, o que significa despolitizar?
Se a tese é de que indicação política, por si só, compromete uma gestão, o mesmo critério precisa valer para Maceió. Na política, a régua não pode mudar de tamanho dependendo de quem está sendo medido.
Mas talvez o ponto mais curioso tenha surgido quando JHC criticou a realidade de pessoas que precisam acordar de madrugada para conseguir uma ficha de papel em uma unidade de saúde. A crítica seria perfeitamente compreensível não fosse um detalhe inconveniente: JHC comandou Maceió.
Se esse modelo de atendimento continuou existindo na capital durante sua administração, a pergunta é inevitável: por que o eleitor deve acreditar que o problema será solucionado em todo o Estado se não foi completamente resolvido no município que ele administrou?
Na educação, o discurso também encontrou obstáculos. JHC afirmou que todos os Gigantinhos seriam bilíngues e funcionariam em tempo integral. Mas as próprias informações divulgadas sobre as unidades mostram que essas características não alcançam indistintamente toda a rede.
E existe outra disputa que começa a surgir em torno do programa: a tentativa de atribuir a Marina Candia a idealização dos Gigantinhos.
A história, porém, começou antes. Foi durante a passagem de Jó Pereira pela Secretaria Municipal de Educação que a modelagem do programa começou a ganhar corpo. Durante um curso no Insper, Jó conheceu experiências e profissionais envolvidos em projetos semelhantes e, a partir dali, reuniu uma equipe para desenvolver uma solução voltada à primeira infância em Maceió.
Marina Candia participou posteriormente do processo e teve atuação no programa. Isso, contudo, é diferente de atribuir exclusivamente a ela a criação dos Gigantinhos.
Reconhecer quem participou de cada etapa não deveria ser uma questão eleitoral. É simplesmente preservar a história de uma política pública. Governos passam, campanhas terminam e personagens mudam de posição. Os fatos, em tese, deveriam permanecer no mesmo lugar.
É justamente aí que a entrevista de JHC ganha importância política. Com pesquisas indicando empate técnico, o candidato precisa ampliar sua exposição, conceder entrevistas e explicar ao eleitor o que pretende fazer com Alagoas. É natural. Quanto mais competitiva a eleição, maior será a cobrança para que os candidatos saiam das peças publicitárias e enfrentem perguntas.
Só que entrevista tem uma diferença fundamental em relação à propaganda: o dado pode ser confrontado.
Na checagem das 12 afirmações analisadas, dez apresentaram erros, imprecisões ou ausência de comprovação. Isso representa 83,3% do material verificado.
O número chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo que representa politicamente.
Uma campanha pode exagerar. Pode escolher os números que mais favorecem sua narrativa. Pode explorar fragilidades dos adversários e certamente fará tudo isso. É da natureza de uma disputa eleitoral.
Mas existe uma fronteira entre interpretação política e realidade factual.
JHC tem todo o direito de dizer que faria uma saúde melhor, que administraria os hospitais de maneira diferente ou que considera insuficientes os resultados alcançados pelo atual grupo político. Esse é o debate que uma eleição precisa produzir.
O que não cabe é transformar expansão hospitalar em “desmonte”, tratar problemas que também existiram em sua própria administração como se fossem exclusividade dos adversários ou reconstruir a história de programas públicos de acordo com as conveniências da campanha.
No fim das contas, a questão deixada pela entrevista é mais simples e talvez mais incômoda do que qualquer discussão sobre marketing eleitoral. Para governar Alagoas, primeiro é preciso conhecer Alagoas.
E quando dez de 12 afirmações analisadas apresentam problemas, fica uma pergunta que a campanha de JHC terá de responder até a eleição: quem não demonstra conhecer com precisão a realidade do Estado está preparado para governá-lo?
Carlos Victor Costa
Jornalista
É jornalista com mais de 10 anos de atuação, cobrindo a área de política e economia. Com experiência em campanhas políticas. Graduado em jornalismo, pela Universidade Federal de Alagoas em 2014. Passou por veículos de comunicação como Correio de A...
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