Alan Quintela

Produtor Cultural/Artístico

Cultura, música e entretenimento

Reinventar sem apagar o passado

Paulo Ricardo chega a Maceió com um espetáculo que mistura clássicos, novas leituras e encontros virtuais para mostrar que revisitar a própria história não significa viver preso a ela.

Por Alan Quintela
30/10/2026 às 13:23 10 views
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Trabalhar tantos anos com música me fez perceber uma coisa: para um artista, talvez seja mais difícil permanecer relevante do que fazer sucesso.

O sucesso pode surgir de uma música, de um momento, de uma moda ou de uma combinação quase perfeita entre repertório e época. Permanecer, entretanto, exige outra coisa.

Exige repertório, identidade e, principalmente, capacidade de mudar sem deixar de ser reconhecido.

É justamente por isso que considero interessante observar o momento vivido por Paulo Ricardo, que volta a Maceió neste sábado, 31 de outubro, como principal atração do Downtown Rock Festival, na Fábrica de Eventos, em Jaraguá.

Mais de quatro décadas depois da explosão do RPM, Paulo Ricardo poderia perfeitamente subir ao palco, cantar os grandes sucessos dos anos 80 e entregar ao público uma noite de nostalgia.

Provavelmente funcionaria.

“Louras Geladas”, “Rádio Pirata”, “Olhar 43” e “Revoluções por Minuto” continuam fazendo parte da memória musical brasileira e atravessaram gerações.

Mas a proposta da nova turnê, chamada Reinventar, parece partir justamente de outro princípio: olhar para o passado sem transformar o artista em peça de museu.

E talvez o próprio nome do espetáculo diga muito sobre aquilo que uma carreira longa exige.

Nostalgia sozinha não sustenta uma carreira

Tenho falado bastante nesta coluna sobre memória afetiva e sobre a força que repertórios de outras décadas continuam tendo no mercado de entretenimento.

Existe público para isso. E muito.

Mas há uma diferença entre explorar a nostalgia e continuar artisticamente ativo.

Paulo Ricardo continua lançando músicas, experimentando formatos e reorganizando a própria obra para dialogar com um público que hoje é formado tanto por quem viveu o auge do RPM quanto por pessoas que conheceram essas canções décadas depois.

A turnê Reinventar mistura exatamente esses dois mundos.

Os clássicos continuam lá, ao lado de músicas da carreira solo e de trabalhos mais recentes, como “O Verso” e a própria “Reinventar”.

O espetáculo também abre espaço para homenagens e encontros que ajudam a contar parte da história do rock brasileiro.

Entre os momentos mais curiosos estão as participações virtuais de Renato Russo e Rogério Flausino.

São recursos tecnológicos que permitem colocar no mesmo palco diferentes gerações e capítulos da música brasileira.

No caso de Renato Russo, há ainda uma carga simbólica especial.

RPM e Legião Urbana fizeram parte de uma geração que ajudou a transformar o rock nacional nos anos 80. Décadas depois, a tecnologia permite criar um encontro que fisicamente já não seria possível.

Com Rogério Flausino, a relação é diferente. É uma ponte com outra geração do pop rock brasileiro, com quem Paulo Ricardo também mantém parceria musical.

Isso mostra como tecnologia e memória podem trabalhar juntas sem necessariamente transformar um espetáculo em simples homenagem ao passado.

Um repertório que virou parte da cultura brasileira

Há músicas que pertencem ao artista.

E há músicas que, depois de algum tempo, parecem passar a pertencer também ao público.

Quando milhares de pessoas cantam “Olhar 43” ou “Rádio Pirata”, não estão apenas acompanhando Paulo Ricardo.

Muitas delas estão reencontrando uma fase da própria vida.

É algo que considero fascinante na música.

Uma canção gravada há quarenta anos continua tendo três ou quatro minutos de duração, mas aquilo que cada pessoa coloca dentro desses minutos muda completamente com o passar do tempo.

Ali entram lembranças de festas, amigos, namoros, viagens e momentos que não existem mais.

Talvez seja justamente por isso que determinados repertórios sobrevivem.

Não sobrevivem apenas porque eram bons.

Sobrevivem porque passaram a fazer parte da história das pessoas.

Maceió recebe uma nova fase

O show deste sábado acontece dentro do Downtown Rock Festival, que começa a partir das 17h na Fábrica de Eventos e reúne também Legião Urbana Cover Recife, Anabela, de Recife, e a banda alagoana Jam80.

Para Maceió, é mais uma oportunidade de perceber algo que venho observando há algum tempo: existe um público significativo interessado em rock nacional, repertórios clássicos e artistas que atravessaram diferentes gerações.

Mas considero que o principal interesse deste encontro vai além de simplesmente ouvir novamente os sucessos do RPM.

É observar como um artista consegue olhar para mais de quarenta anos de carreira e escolher não apenas repeti-los.

Reinventar não significa negar aquilo que foi feito.

Muito pelo contrário.

Para se reinventar de verdade, primeiro é preciso ter uma identidade suficientemente forte para que, mesmo depois das mudanças, o público continue sabendo quem está diante dele.

E poucos artistas do rock brasileiro construíram uma imagem tão imediatamente reconhecível quanto Paulo Ricardo.

A voz, o baixo, a estética e as músicas continuam remetendo inevitavelmente àquela geração dos anos 80.

O desafio é fazer tudo isso conversar com 2026.

Talvez esse seja o segredo da longevidade

Vejo muitos artistas preocupados em descobrir a fórmula para permanecer no mercado.

Não acredito que exista uma.

Mas algumas carreiras deixam pistas.

É preciso respeitar o repertório que o público ama sem transformar esse repertório em prisão.

É preciso aceitar novas tecnologias sem utilizá-las apenas porque são novidade.

E, principalmente, é preciso continuar tendo alguma coisa a dizer.

Neste sábado, Paulo Ricardo volta a Maceió carregando músicas que já fazem parte da história do rock brasileiro, mas com um espetáculo construído justamente em torno de uma palavra que deveria acompanhar qualquer carreira longa:

reinventar.

Porque talvez envelhecer artisticamente não seja continuar fazendo exatamente aquilo que funcionou no passado.

Talvez seja conseguir mudar sem deixar para trás aquilo que fez o público chegar até aqui.

Sobre o colunista

Alan Quintela

Produtor Cultural/Artístico

Alan Quintela é produtor cultural, produtor artístico, produtor musical, técnico de áudio, empresário e funcionário público, pós-graduado em Gestão Pública. Natural de Maceió, construiu sua trajetória profissional unindo experiência técnica, pro...

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