Se Renan é de Lula, Bolsonaro será de quem em Alagoas?
Levantamentos indicam que Renan ainda tem espaço para crescer entre lulistas, enquanto JHC encontra um bolsonarismo já cristalizado.
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Essa semana será decisiva para essa primeira etapa das eleições: após um hiato de pesquisas, vêm os primeiros levantamentos depois das convenções e do começo oficial do pleito eleitoral. Nesta semana, serão divulgados logo três: Data Sensus e Quaest, no começo da semana, e, ao final, a TDL (instituto investigado por fraude).
Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro vem a Alagoas, inaugurando sua agenda no Nordeste na terra dos marechais e ficando dois dias em solo alagoano ao lado de seu vice, Alfredo Gaspar.
Um dos discursos mais repetidos por Renan Filho em comícios e nas redes é justamente o que vincula seu nome ao de Lula e acusa o “outro lado” de esconder Bolsonaro. Em sua foto principal de lançamento da candidatura ao Palácio, Renan aparece com um boné de Lula. Não há dúvida sobre a encruzilhada de Renan em vincular seu nome a Lula em Alagoas. O motivo? De acordo com levantamentos de consumo interno, ou seja, pesquisas que não são registradas, realizados nesta última semana, Lula tem cerca de 60% dos votos válidos no primeiro turno, contra 34% de Flávio Bolsonaro.
Nessa lógica, 31% de quem se considera lulista, cerca de 20% do eleitorado alagoano, vota em JHC, ante 60% de Renan Filho. Anote isso: esse público é composto, em sua maioria, por mulheres, católicos, pessoas sem ensino superior completo e com 45 anos ou mais.
Já a esquerda, que não necessariamente é lulista, apresenta quase o mesmo desenho, mudando apenas a faixa etária: de 25 a 49 anos. Nesse grupo, JHC tem 34%, contra 53% de Renan Filho.
Vamos ao que interessa: existe margem para Renan abocanhar votos tanto do lulismo e da esquerda quanto dos segmentos sociais nos quais esses grupos têm maior presença.
Ambos ainda podem avançar entre o eleitorado feminino, que concentra mais indecisos e não opinantes do que o masculino — justamente um grupo majoritário entre a esquerda e os lulistas.
JHC é consideravelmente mais popular entre os mais jovens, enquanto Renan começa a empatar na faixa dos 45 aos 59 anos. Entre os 60+, o ex-governador está muito à frente.
Até o ensino fundamental, Renan Filho ganha disparado. Apesar disso, ainda há espaço nesse segmento: mais de 22% não escolheram candidato — novamente, um estrato no qual o lulismo exerce influência.
A partir do ensino médio, JHC aparece na frente e volta a perder quando o entrevistado tem faculdade ou mais. Na faixa de renda, o curioso: até dois salários mínimos, estão empatados — justamente onde está grande parte do eleitorado. Nesse segmento social, o desempate pode vir exatamente da tecla que vem sendo batida: o candidato de Lula.
E como fica JHC e o bolsonarismo?
JHC é tão bolsonarista quanto Renan é lulista. Apesar disso, os Calheiros mantêm um longo pacto de amizade e parceria com Lula. Já a relação de JHC com Bolsonaro é pouco ou nada cativante. Para os bolsonaristas mais ideológicos, o prefeito usou o partido e o eleitorado em favor de um projeto próprio, mas demonstrou certa vergonha e distanciamento quando foi confrontado.
Contudo, o bolsonarismo já está bem compactado no eleitorado caldista e nos segmentos sociais com potencial de mudança. Entre quem recebe de dois a cinco e acima de cinco salários mínimos, JHC fica à frente.
Entre as regiões de Alagoas, JHC vence apenas na Região Metropolitana e chega a empatar tecnicamente no Tabuleiro do Sul.
Os levantamentos mostram que o bolsonarismo não tem candidato ao Senado após a saída de Gaspar. Na sequência, aparece Marina JHC, tecnicamente empatada com Arthur Lira.
JHC é a escolha para o governo de 70% dos bolsonaristas, contra 24% de Renan Filho. Trata-se de um eleitorado ainda majoritariamente católico, embora quase empatado com o evangélico, concentrado entre 25 e 44 anos, com ensino médio completo e predominantemente masculino.
Quanto maior a renda, maior a identificação com o bolsonarismo e, consequentemente, a tendência de voto em JHC. Acima de cinco salários mínimos, JHC é unanimidade.
Entre as regiões de Alagoas, o ex-prefeito vence apenas na Região Metropolitana, que inclui Maceió, única capital nordestina e responsável por diversas vitórias de Bolsonaro. Na RMM, há poucos eleitores que não sabem ou não responderam, um dos menores índices entre as regiões — sinal de que o eleitorado está cristalizado. A vantagem de JHC sobre Renan Filho nesse território é muito grande.
É no sertão que se sustenta a competitividade de Renan na disputa contra JHC. É também onde Lula chega a quase 70% das intenções de voto.
E é lá, no médio, alto sertão e agreste, que ainda existe uma parcela considerável do eleitorado que não sabe em quem votar. Ou seja, na prática, colar em Lula é uma estratégia que tem a somar para Renan, que busca se desgarrar de JHC nas pesquisas. Para o ex-prefeito da capital, por outro lado, colar em Bolsonaro mais perde do que ganha, visto que parte considerável de sua base já vota nele, enquanto os segmentos sociais ligados ao bolsonarismo — ou sobre os quais ele exerce influência — já se encontram devidamente cristalizados e pouco propensos a mudanças.
Há ainda outro cálculo nessa balança: a federação de JHC, o PSDB, coligou com o PL de Flávio Bolsonaro. Foram eles que ofereceram tempo suficiente para que JHC possa ficar até 30 segundos a mais na TV do que Renan Filho. Agora, a cobrança vem; falta saber se os Bolsonaros encontrarão quem lhes deve. JHC, que já escondeu o pai, agora foge do filho.
João Mendonça
Jornalista
Jornalista — Formado em Jornalismo pela Ufal, realizador audiovisual e produtor cultural, participa do Pan News e do Sem Filtro. Acompanhe no Tiktok: @joaomendonca333
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